Beleza

Na Contramão: Entrevista com a poderosa maquiadora Vanessa Rozan

Vanessa Rozan nada contra a corrente e transforma seu trabalho de maquiadora em algo colaborativo, acolhedor e inovador
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Foto: Edu Cesar

Quem conhece Vanessa Rozan sabe. Ela enxerga a beleza de forma diferente do comum, como algo maior: a maquiadora trata sua profissão como uma ferramenta de transformação social, como há muito não se via no mercado. Feminista, pós-graduada em semiótica psicanalítica e mestre em comunicação e semiótica pela PUC-SP, é só acompanhar suas redes sociais por alguns dias para entender seu posicionamento firme frente aos problemas das mulheres, nossas lutas e nossas angústias. E pode até parecer conflitante trabalhar em um mercado que sempre nos explorou e nos prendeu em um padrão de beleza muitas vezes irreal. Mas não para Vanessa.

 

Há dez anos, ela abriu, ao lado do amigo e sócio, Vito Mariella, o Liceu de Maquiagem, em um mercado ainda muito embrionário, com poucas escolas de beleza e menos ainda com profissionais atualizados. Em 2019, quando ele completa sua primeira década de vida, ambos se veem em uma cidade praticamente saturada, mas na qual têm nome e história. Em vez de expandirem o negócio e abrirem mais unidades, Vanessa e Vito decidiram tornar seus processos ainda mais artesanais e redondos. “Concentramos as aulas cada vez mais em mim e no Vito, estamos cuidando de todas as turmas, lapidando o melhor de cada aluno e ampliando o conhecimento que gostaríamos de passar para a frente”, conta a maquiadora.

 

É que, para eles, não adianta mais só saber fazer um delineado perfeito. Isso é pré-requisito básico. “Nós acreditamos numa formação mais global, que mistura colorimetria, cosmetologia e alquimia. Para ser maquiador nos dias de hoje, é preciso saber mais do que apenas maquiar”, continua. Ler rótulos, entender quais produtos e ingredientes funcionam juntos, o que vai fazer as maquiagens durarem mais, quais matérias-primas são ideais para o job do dia. A consequência desse trabalho mais completo faz com que quem estuda lá tenha várias possibilidades. Há alunos do Liceu que saem e se arriscam a criar suas próprias marcas, como Mona Jutar, da marca Mona. Há alunos que viraram treinadores de grandes marcas, como Gisele Magatti, da Guerlain. E até quem trabalhe com a família Kardashian, como é o caso de Dindi Hojah. Não há regras e isso é o mais interessante.

 

Mais do que uma escola que ensina e insere profissionais no mercado em que eles queiram atuar, Vanessa pensa no Liceu de Maquiagem como uma casa para quem estudou lá. “Eu quero que meus alunos voltem ao meu espaço para conhecer produtos de marcas parceiras, para tomar um café e conversar sobre a carreira”, explica Vanessa, que oferece um local acolhedor e colaborativo, em um mundo cada vez mais competitivo. 

 

“Nós fazemos também parcerias com a Madre Conhecimento Criativo, uma escola de maquiagem que muitos enxergam como a nossa concorrente direta. Não tem isso. Nós falamos com as mesmas pessoas que querem e trabalham no mesmo mercado. O ‘support your local girl gang’ (apoie sua gangue feminina local) não pode ser apenas uma falácia”, fala Vanessa sobre uma prática mais humana, compreensiva e difícil de encontrar.

 

Essa linha de pensamento começou em seu trabalho como maquiadora de moda, que nunca respeitou uma hierarquia hoje considerada ultrapassada de chefes e assistentes e sempre foi extremamente colaborativa. “Muitas pessoas me mandam mensagem pedindo para serem meus assistentes em alguma foto ou trabalho. Não existe isso para mim! Eu carrego minha própria maleta de maquiagem há 20 anos”, comenta, rindo. Essa transformação é importante num mercado que precisa de um mindset mais horizontal, que leve em consideração opiniões dissidentes e coloque todos no mesmo patamar. 

 

Além de tudo isso, Vanessa ainda é consultora e embaixadora da Vult, faz programas sociais de capacitação na Ocupação Mauá ao lado da maquiadora Fabiana Gomes, grava vídeos de Maquia e Fala – nos quais ensina mulheres a se maquiar e entender suas próprias belezas – e é mãe de Pinah e de dois lulus-da - -pomerânia, Fufu e Lupi. Tudo isso sem perder o discurso, a leveza e a sororidade entre as mulheres, um de seus grandes trunfos.

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