A hora da estrela: uma entrevista com Elle Fanning
Cultura

A hora da estrela

Atriz desde os dois anos de idade, Elle Fanning estrela neste mês seu papel mais maduro até agora, em A Lei da Noite. Aqui, ela fala à L’Officiel sobre o trabalho com Ben Affleck, diretor do filme, e a nova fase na carreira.
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Quando tinha nove anos, Elle Fanning interpretou uma garota com Síndrome de Tourette em A Menina no País das Maravilhas, momento decisivo para ela, por ser seu primeiro papel como protagonista. “Foi quando me dei conta de que atuar não era só decorar falas e ficar paradinha num lugar. Era um trabalho genuíno e emocionante. Pensei: quero fazer isso para o resto da minha vida”, relembra ela, aos 18, em entrevista à L’Officiel Brasil.

“Mas minha primeira lembrança de estar num set de filmagem é de quando tinha quatro anos: o [ator] Jeff Bridges me ensinando a desenhar enquanto filmávamos Provocação”, continua. A atriz tem feito filmes desde os dois anos de idade, quando debutou no cinema em 2001 como a filha de Sean Penn em Uma Lição de Amor, seguindo os passos da irmã mais velha, Dakota.

Fez, desde então, longas aclamados pelo público e crítica, como Babel, O Curioso Caso de Benjamin Button e Super 8, crescendo diante dos olhos dos espectadores, até desabrochar em Um Lugar Qualquer, de Sofia Coppola – quando passou a ser, também, queridinha da moda, estampando campanhas para Marc Jacobs, Miu Miu e Tiffany & Co. e fashion films para a Rodarte. À medida em que se torna uma jovem mulher, os papéis de Elle também amadurecem.

No ano passado, estrelou o provocativo Demônio de Neon, que aborda o ambiente competitivo e vaidoso de um grupo de modelos. Agora, em 23 de fevereiro, estreia em A Lei da Noite, filme que acompanha um grupo de gângsteres de Boston que faz negócios duvidosos durante a Lei Seca. É escrito, dirigido e estrelado por Ben Affleck. “Acho que é o papel mais maduro que já fiz até hoje,  e que alcançou a minha idade”, diz Elle sobre Loretta Figgis, uma jovem aspirante a atriz que, ao ver seus sonhos despedaçados, acaba virando uma líder religiosa nos Estados Unidos dos anos 20. “A Loretta cresce ao longo da história, sua visão de mundo se transforma. Ela mantém certa inocência, mas viu e fez coisas ruins. Eu queria muito fazer esse filme, mas não sabia se era jovem demais para o papel”, explica.

Affleck, no entanto, não hesitou em dar o papel a ela. “Nos encontramos no escritório dele nos estúdios da Warner Bros., mas eu sabia que ele estava testando outras meninas, mais velhas que eu. No fim, ele mesmo me ligou para dizer que eu estava dentro”. 

São nas cenas com ela, aliás, que o drama, também estrelado por Sienna Miller e Zoe Saldana, tem seus melhores momentos. Sempre vestindo cores claras, como uma figura angelical, Loretta dá sermões e tem conversas densas com o personagem de Affleck. “Os anos 20 foram um período interessante para as mulheres. Elas largaram os corpetes, cortaram o cabelo e ficaram mais rebeldes. Tudo o que vestimos no filme era original da época, todas as roupas, e até a maquiagem. Isso deu um sentimento de que estávamos fazendo um filme à moda antiga, fomos transportados para outro tempo”, comenta, a bordo de um vestido estampado da grife italiana Vivetta, os cabelos loiríssimos iluminando o rosto sem maquiagem exceto por dois traços de delineador azul nos olhos. “Eu estava tão nervosa em atuar com o Ben!”, fala, gargalhando e arregalando os olhos, com a espontaneidade que se espera de uma adolescente adorável.

“Quando você divide a cena com o diretor, é natural que sinta uma pressão maior para acertar. Foi uma experiência muito interessante. Ainda mais porque quero dirigir um filme um dia, então, observei como Ben transitava entre a direção e a atuação”, diz, completando, sobre a possível futura empreitada por trás das câmeras: “Não sei bem o que eu mesma gostaria de dirigir. Sempre gostei de escrever – escrevia contos quando criança – e, como cresci em sets de filmagem, tenho muita admiração por diretores que transformam sua visão criativa em filme. Vou começar bem discretamente, quando for a hora certa”.

Pode-se dizer que Elle, de fato, tem tido bons professores. Com uma filmografia impressionante para uma garota tão jovem, já trabalhou com alguns dos cineastas de mais renome na cena atual, como David Fincher, Alejandro González Iñárritu e Sofia Coppola. É com Coppola, aliás, que começaria a rodar um novo filme na semana após esta entrevista. Com Kirsten Dunst, Nicole Kidman e Colin Farrell, a atriz partiu para Nova Orleans para fazer O Estranho que nós Amamos, em que será “uma dama sulista”, e sobre o qual não pode comentar mais detalhes a não ser que o lançamento deve acontecer ainda em 2017. É uma entre outras quatro estreias de longas em que atua previstas para este ano.

“Ter interesse na história e no personagem são coisas essenciais para mim. Se eu tenho dúvida se devo ou não fazer um filme, é porque provavelmente não devo fazê-lo. Sigo meu coração. E também levo em conta com quem vou trabalhar. É muito legal estar junto de diretores e atores de quem você gosta”, reflete, sobre as escolhas ao longo da carreira. 

Conversando com ela, não é difícil entender por que Elle é tão requisitada em Hollywood. É uma garota ensolarada, cheia de energia, capaz de iluminar a sala sem graça de um hotel em Los Angeles logo que põe os pés dentro dela – calçados num par de loafers Gucci com o “salto ideal”, vale dizer. Gesticula bastante ao falar, dá risada sem restrições, mas não é expansiva demais.

É bastante serena, perceptiva, e consegue usar isso em seu trabalho. “Elle é uma pessoa tão inteligente e totalmente presente que você sente que ela está conectada a um rio profundo de intuição. Ela tem um talento imenso, mas também uma ligação com emoções verdadeiras que vai além da sua idade”, elogia Mike Mills, que a dirigiu em Mulheres do Século 20, filme indie supercool situado nos anos 70, que entra em cartaz em março. “Sinto que estou vivendo um sonho, porque posso fazer o que amo. Acabo de me formar na escola e quero continuar a fazer o que tenho feito. Gosto de me ocupar. Mas estou iniciando um novo capítulo na minha vida agora que fiz 18 anos”, confidencia.

“Sou adulta e tenho novas responsabilidades. Ainda moro com minha família. Eventualmente, me pego pensando muito sobre o futuro: devo sair de casa? Onde quero morar?”. Enquanto não resolve essas questões, contenta-se em votar pela primeira vez numa eleição. “Não vejo a hora de pegar meu selo que diz: ‘Eu votei’! Estou muito animada”, conclui, balançando o corpo bem de leve, quase dançando. “Estou vivendo no momento”.

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