Cultura

Fora da curva

por Marília Kodic
30.01.2017
Brasileira de sucesso em Hollywood, mulher em papéis de destaque tradicionalmente masculinos, Alice Braga mostra por que é exceção à regra – e por que a regra tem que mudar.

Depois de consolidar seu nome no cinema nacional como a Angélica de  Cidade de Deus (2002), Alice Braga rapidamente conquistou a indústria de Hollywood atuando ao lado de astros como Will Smith, em Eu sou a Lenda (2007), Julianne Moore, em Ensaio sobre a Cegueira (2008), Jude Law, em Repo Men (2010), Anthony Hopkins, em O Ritual (2011), e Matt Damon, em Elysium (2013) – a lista é extensa.


Agora, se consagra como a primeira brasileira a protagonizar uma série norte-americana: A Rainha do Sul, cujas filmagens da segunda temporada acaba de começar, em Dallas. Na trama, exibida no Brasil pelo canal Space, Alice é Teresa Mendoza, uma jovem mexicana que se refugia nos Estados Unidos para assumir o controle do tráfico de drogas antes pertencente a seu namorado, que acaba de ser assassinado. O papel, que retrata uma mulher sem clichês de fragilidade, reflete não só 
as escolhas profissionais de Alice, como também sua postura fora das telas. Se de um lado está a constante escolha por papéis femininos fortes e insólitos, de outro está uma mulher que reúne essas características sem esforço algum. Sobre empoderamento, misoginia e os próximos projetos – além de filmar a série, ela está produzindo um documentário sobre o brasileiro Thiago Soares, primeiro bailarino do Royal Ballet de Londres –, ela fala na entrevista exclusiva a seguir.
 

O empoderamento feminino é um tema que sublinha A Rainha do Sul. Como você avalia a representatividade das mulheres na indústria audiovisual hoje? A representatividade das mulheres hoje, não só na indústria audiovisual, mas também em outros contextos da sociedade, é um tema central, superado no sentido de que ninguém deveria mais questioná-lo. A conscientização é importante, e acredito que vem aí uma geração bem disposta a colocar os pingos nos “is” no quesito igualdade de direitos entre homens e mulheres. Mas é importante, também, pensar em iniciativas que deem às mulheres acesso a áreas geralmente reservadas aos homens. 


Como isso se dá no cinema? Falando de cinema, especificamente, o problema passa pelos próprios roteiros: textos com protagonistas mulheres são numericamente raros. Ou, quando disponíveis, narram a jornada de uma personagem cuja redenção é... achar um marido. A questão tem dois aspectos: precisamos de histórias que abordem a subjetividade feminina com profundidade, mas também precisamos ter acesso a histórias universais, com protagonistas que poderiam ser tanto homens quanto mulheres. Por que o universal é, por definição, masculino?

 

 

Há a quem culpar pela misoginia neste ambiente? A misoginia é um problema cultural, mais antigo que todos nós, não é particular do cinema ou da TV. Os postos de comando das grandes organizações são tradicionalmente reservados aos homens – mas não são de propriedade deles, então o melhor que a gente pode fazer é chegar lá e disputá-los no mérito, desatando as armadilhas que existem para dificultar esse acesso, de forma que fique cada vez mais simples chegar lá. 

 

É uma batalha... É uma batalha mesmo. O importante é insistir e romper padrões que historicamente colocam a mulher em segundo plano. O que é mais complicado, no caso do cinema, é que a gente conta histórias, e essas histórias criam representações –  tanto de homens quanto de mulheres –  que, com frequência, estão repetindo velhos clichês e preconceitos. Não é piada o fato de que tantas comédias brasileiras que têm protagonistas mulheres pintem um quadro em que a coisa mais importante da vida de cada uma de nós, o que nos define, é amarrar um cara. Como se fosse nossa salvação. Esse é um ponto a que atualmente as pessoas estão dando menos atenção do que deveriam. Uma reação maior deveria existir.

 

Sua estreia como diretora foi com uma série documental sobre Neymar. O que a atraiu ao projeto? O Felipe Braga, diretor, meu amigo, e sócio na produtora, foi convidado para dirigir um projeto com o Neymar, e me convidou para entrar nessa jornada com ele. Achei um desafio interessante para viver. O Neymar ama o que faz acima de tudo. Isso é inspirador. A paixão dele pelo futebol é encantadora.

Você está produzindo um documentário sobre o bailarino Thiago Soares. De onde veio a vontade de contar essa história? O Soares, como é chamado em Londres, é mais do que um bailarino. É um artista múltiplo, que faz pontes entre culturas, especialmente o gingado brasileiro e a tradição clássica britânica. É uma grande figura, bem-humorado, inteligente, com tudo o que se precisa de um bom personagem. Ele saiu do hip hop carioca e tem uma forte história para mostrar. E, no filme, registramos a forte participação de mulheres ao seu lado, tanto bailarinas como a coreógrafa Deborah Colcker. Há uma geração de diretores brasileiros hoje, como Anna Muylaert e Kleber Mendonça Filho, que está revalorizando o cinema nacional.

 

O que acha desta safra? Sensacional. E olha que Anna e Kleber já estão na faixa dos 50 anos. Um time imenso vem abrindo portas e portas – e, dentro da perspectiva do começo da entrevista: cresceram no digital e com presença feminina.
 

FOTOS GIL INOUE 

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