Moda

5 marcas que te farão repensar o consumo

Separamos 5 marcas que estão ajudando o mercado a repensar o consumo e as maneiras de produzir. Confira!
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Fotos: Debora Spanhol

A moda brasileira não vive uma fase fácil. Além das já costumeiras crises financeiras e de consumo, que vêm e vão, a atual pandemia foi um baque em empresas de todos os portes — mas notadamente nas pequenas e médias marcas independentes, de empresários/criadores que não contam com capital de giro e tiveram de cortar um dobrado no último ano para manter vivo o ideal de produzir pelo país uma moda de pegada mais pessoal. Para marcar esse esforço, abrimos 2021 apresentando cinco nomes que, apesar de tudo, estão ajudando a repensar o consumo e as maneiras de produzir. Cada um a seu modo e com histórias bem particulares, eles representam essa classe de criadores e empreendedores brasileiros que têm algo em comum: um otimismo inquebrável em relação ao amanhã.

NOVE - Coragem grande é poder dizer sim!

Acompanhar a Nove é uma rara oportunidade de ver uma marca ser construída ao vivo, literalmente. Seu criador, Athos Henrique, já é o novo representante da moda mineira, mas está longe de ter o histórico da classe média branca da capital. Vindo da região metropolitana de BH, Athos cavou sua trajetória com esforço redobrado, trabalhando desde os 16 anos e encarando três ônibus para começar atuando no chão de fábrica. Obstinado, passou por boa parte dos luminares locais — incluindo Gig, Printing, Coven, Mabel Magalhães — tendo como ponto de partida a Apartamento 03, de seu grande ídolo e espelho, o estilista Luiz Claudio Silva. “Quando trabalhamos juntos era outra época, bem diferente da explosão de diversidade que estamos vivendo hoje”, relembra Luiz. “Dividir a criação com alguém que se parece com você é uma experiência incrível. O olhar e as trocas entre pessoas pretas é uma sensação inexplicável. Era uma delícia a atenção que ele tinha sobre tudo o que eu falava e todos os movimentos que eu fazia.”

Depois de quase dez anos absorvendo os meandros de construção das roupas, Athos quis provar que poderia assumir o papel que o mercado não lhe entregava de bandeja: o de criador de moda. Daí nasceu a Nove, que começou como um reality show afetivo documentado pelo Instagram: “Eu convidava uma pessoa para uma conversa, da qual saía a roupa. E todo esse processo era registrado em vídeo. Na metade dos nove episódios, começou a surgir uma demanda. Foi assim que de fato nasceu a marca”.

Logo depois da segunda coleção, seu planejamento foi atropelado pela quarentena — salvo por conta do movimento de apoiar marcas independentes. De lá para cá, com drops autônomos que seguem suas vontades de experimentar, Athos virou o xodó local — chegou a criar uniformes para o time feminino do Atlético Mineiro e fez uma collab com a conterrânea LED, exibida na última SPFW. E ele trabalha com a cabeça no futuro: “Estou aqui para ser um estilista reconhecido”.

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Fotos: Debora Spanhol

CALMA - Pela estrada, embaixo do céu

Se historicamente a moda criada em São Paulo nunca foi muito pródiga na estamparia, neomarcas têm ido contra o velho clichê da metrópole sisuda — e a Calma talvez seja a mais maximalista delas. Dirigida por Kelly Kim e Adrien Gingold, a etiqueta começou a nascer sem pretensões numa estrada no Vietnã, no meio da lua de mel/mochilão do casal. Kelly, que já vinha de duas décadas na indústria de confecção, usou a viagem para estudar os rumos sustentáveis da moda. De volta ao Brasil, passou a criar jaquetas únicas com lenços estampados, que eram vendidas on-line e ajudaram a despertar um novo caminho criativo. Pouco mais de dois anos depois, o resultado é uma marca totalmente dedicada a peças e conjuntos ultraestampados, sem focar em gêneros e a fim de atender a qualquer tipo de corpo — fatores que a ajudaram a se tornar hit nos stories, ainda mais durante a quarentena. “Como a roupa é confortável, as pessoas usaram bastante durante essa fase, para trabalhar e ficar bem consigo. Isso deu um crescimento bom para nós”, conta Adrien, jornalista francês que assumiu o papel de administrador da marca de moda e... garoto-propaganda, ao lado da sócia e mulher.

Além do ultracolorido, a força da Calma vem da espontaneidade da dupla como embaixadora no Instagram. “A marca, desde o começo, somos nós dois. Então esse papel foi natural, além de necessário. Nós somos assim, não temos vergonha de ser engraçados, de levar uma vida leve”, define Kelly, que gosta de estabelecer a estamparia como obras de arte: “Assim como você gosta de um quadro sem conseguir definir o motivo, a estampa toca você de alguma maneira. Então aquela peça não vai ser algo descartável”.

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Fotos: Debora Spanhol

NADRUZ - Deixo fluir tranquilo

Giovanna Nadruz é partidária de um jeito contemporâneo de produzir moda. “Precisamos parar de insistir na ideia de que as pessoas precisam de algo, em vender o must have. Por isso tenho essa produção mais devagar, no meu tempo”, defende a estilista. “Cada peça tem de ser muito importante para existir. Se não, é melhor não fazer.” Sua Nadruz é cria direta da quarentena, mas vem sendo gestada aos poucos pela estilista carioca, que passou pela Wymann e pela Animale antes de se estabelecer em São Paulo, há dois anos.

O início do lockdown, em março, coincidiu com o intenso processo de desenvolvimento que resultou na primeira coleção, com lançamento iniciado no fim de 2020 e que vai até março — com pequenas entradas a cada mês, sempre no ritmo da criadora. Sua moda, seasonless e de pouca produção, feita 100% de tecidos naturais, tem referências bem íntimas. “As peças foram desenvolvidas baseadas em coisas que eu tinha em casa, de minha avó, de minha mãe. Peças que eu peguei das mulheres de minha família e fui revisitando, entendendo, desmontando”, conta Giovanna, mesclando essas memórias com uma forte pesquisa de referências que traduzem a proteção afetuosa de casulos e um gosto especial por grandes moldes: “Não consigo fazer nada que seja sequinho, gosto de coisas com muito de tudo”. Daí os vestidos com babados de volumes imensos, as calças amplas e o macacão confortável, como as camisas — que exibem uma inesperada porém interessante estampa com ovos. “O que faço são roupas que não têm cara de uma temporada, mas de algo que vai durar para sempre”, define.

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Fotos: Debora Spanhol

PAULA RONDON - Posso ficar pensando no que é bom

Uma das mãos por trás do B.Luxo desde o começo dos anos 2000, Paula Rondon não é figura nova na moda; mas esta é a primeira vez em que ela empresta seu nome a um projeto paralelo ao brechó. A marca de vestidos é uma soma da necessidade de reinventar a vida durante a quarentena, enquanto ela não pode voltar
a se estabelecer em Londres — onde morava — por conta da pandemia, com uma vontade de dar vida nova a um imenso acervo de tecidos antigos, acumulado durante os últimos 14 anos. “Sou louca por esses materiais, principalmente os bordados à mão. Então, enquanto garimpávamos peças para a loja em viagens, fui também garantindo esses achados”, conta. “Chegou um momento em que eu tinha reunido uma bela coleção, mas que só servia para pendurar e ficar admirando. Não usava para nada, e era tudo muito bonito para ficar ali parado.” Aí veio a ideia de botar a mão na massa e construir uma série de vestidos amplos, fazendo um mix’n’match de todas essas opções de matéria-prima — a mais recente tem pelo menos 30 anos. “Muita coisa, desde lençóis do Snoopy da década de 1970 até uma saia para cama de linho francês do início do século passado, que acabou virando o corpo de um vestido.”

A criação se divide entre o exercício de sustentabilidade, para o aproveitamento máximo dessas fazendas insubstituíveis, e o fluir da criação instintiva, quase freestyle, que resulta em peças únicas e com carinha de vintage confortável para ficar em casa. A pedido do público, que às vezes garante a compra antes mesmo de Paula anunciá-los, os vestidos logo devem ganhar a companhia de camisas.

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Fotos: Debora Spanhol

MISCI - Vislumbro certas coisas de onde estou

A Misci tomou para si um papel interessante no mercado. Surgida em 2018, a marca, idealizada por Airon Martin, não quer saber da moda esvaziada pela hipercomunicação global. Posicionando-se como um estúdio multidisciplinar de criação, ela encara sua linha de vestuário como consequência de um projeto construído a partir dos princípios de inclusão do design universal — ou, resumindo a grosso modo, o objeto (ou roupa) que não precisa ser adaptado para atender a corpos diferentes. “O design é o que enche meus olhos. Quem vai dizer se eu faço moda ou não é a sociedade, com o tempo”, reflete o criador.

É dessa metodologia, e olhando para o ideal de um Brasil inteligente — representado por ideais modernistas —, mas também único em referências imagéticas, que a Misci propõe uma estética confortável, preenchendo um espaço de pensamento de moda intelectualizada, que já foi mais animado no país em em décadas passadas. Ao mesmo tempo, Airon se apropria de um papel de educador de um público consumidor que olha com especial desdém uma marca premium nacional em comparação às grifes estrangeiras. “O sistema nos coloca esse desafio de convencer o consumidor de que um produto brasileiro, feito de matéria-prima 100% nacional, vale o preço cobrado”, diz Airon, defendendo sua missão de criar um “design digno”. Com isso, ele faz da Misci uma empresa que neutraliza suas emissões de carbono e está envolvida com projetos de reflorestamento, além de se preocupar com valores justos na cadeia de produção e sustentabilidade humana, com crescimento saudável da marca. “Eu gosto de design, gosto de gente e odeio moda — se moda for essa coisa rasa e fútil, do consumo vazio e do look do dia”, provoca. “Mas moda é muito mais que isso; é comida, é tudo o que está a nosso redor. Precisamos ressignificar essas ideias.”

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Fotos: Debora Spanhol

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