Moda

Rumo certo: em tempo de sustentabilidade

Entre Paris e São Paulo, a Augusta mostra como é possível construir uma marca 100% sustentável a partir de conhecimentos tradicionais da moda
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Túnica em trompe d'oeil de plissados coloridos, de viscose sustentável e poliamida biodegradável e calça de tencel e poliamida biodegradável (Fotos: Leandro de Carvalho/Modelo: Maressa de Freitas)

“Com a informação que nós temos hoje, não ser sustentável não é mais uma opção.” É pontuando as palavras dessa frase que Carolina-Augusta Neumann define como enxerga o papel da indústria da moda em geral – e de sua marca, Augusta, em particular – para os tempos atuais.

Com a firmeza inevitável de sua ascendência germânica, ela não volteia sobre o assunto. “Vivemos um momento em que sustentabilidade virou uma coisa perigosa”, reflete. “Mas perigosa no sentido de que qualquer marca, hoje, se apresenta como correta, mas não faz um trabalho verdadeiramente comprometido com essa questão. Não é só pegar uma fibra sustentável e vender; o pensamento tem de ir muito além disso.”

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Detalhe das alças de vestido, feitas com trança de crochê manual na malha de modal sustentável (Fotos: Leandro de Carvalho)

Em seu trabalho, Carolina se propõe exatamente a ir além. Formada em cinema em Buenos Aires, sua história na moda começa de fato em Paris – onde passou a morar para cursar a École de la Chambre Syndicale de la Couture Parisienne, atual Instituto Francês da Moda. Da sala de aula, ela saiu com o projeto de montar uma marca tipo ateliê, que fosse 100% sustentável, como ela define: “Que se voltasse a essa ideia do couture, mas que trabalhasse com as necessidades de nosso tempo”.

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Fotos: Leandro de Carvalho

A Augusta começou a dar seus primeiros passos em 2014, uma época em que a indústria ainda tratava a sustentabilidade como um chiste utópico, produzindo roupas em pequena escala, sem se atrelar a calendários nem coleções, e sempre em um esforço para manter a correção na produção, de ponta a ponta. “É sobre um pensamento de design, que reflete toda a cadeia de produção; uma coisa única. Não adianta você usar uma matéria-prima inovadora se você manda o lixo têxtil para o aterro. A costureira que trabalha para sua marca, você realmente conhece ou tem alguém atravessando esse caminho?”, diz, apontando os problemas de muitos colegas de profissão que se colocam sob uma aura de correção social que vai só até a segunda página. “Ser sustentável é ser transparente e legítimo. Não há espaço para ser falso.”

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Fotos: Leandro de Carvalho

De dois anos para cá, o ateliê parisiense se tornou uma ponte aérea de desenvolvimento, exatamente em busca dessa legitimidade. A criadora trouxe seu olhar para o Brasil, começando a criar um polo de produção por aqui – movimento que se intensificou por conta das restrições de viagens causadas pela pandemia. “Foi uma realização poder me reconectar com o país e trabalhar com alfaiates, tricoteiras e crocheteiras brasileiras”, diz ela, agora baseada em São Paulo, onde mantém um ponto de venda na loja Pinga. “Afinal, eu também trabalho muito com essa história de localidade. Não importo nem exporto matéria-prima; se vou trabalhar com tecido brasileiro, a produção também é brasileira.”

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Fotos: Leandro de Carvalho

Apesar de todas as dificuldades que o mercado de moda enfrenta, Carolina é otimista em relação ao papel nacional nesse viés sustentável que se tornou essencial à indústria. E vai experimentando possibilidades locais, dentro de suas matérias-primas 100% certificadas, como o náilon biodegradável ou a manteiga de cupuaçu nas fibras. “O Brasil sempre foi aberto a essas discussões. Há muitas pessoas boas e comprometidas com a causa aqui. Temos criatividade, estamos muito mais avançados do que a Europa em algumas questões. E podemos avançar ainda mais.”

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Fotos: Leandro de Carvalho

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