Moda

Tesouros quase perdidos: desvende o savoir-faire da Chanel

Após décadas de investimento na aquisição de ateliês centenários parisienses, a Chanel mostra sua paixão pelo savoir-faire e mantém ricos processos artesanais originários do século 19
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O manuseio de plumas no ateliê de Lemarié

Ao mesmo tempo que a tecnologia – seja na produção, seja na comunicação – está na lista de prioridades dos grandes nomes da moda, há um movimento de incentivo, cada vez mais forte, às técnicas manuais. Claro, uma não exclui completamente a outra, mas é provável que máquinas e facilidades (principalmente falando sobre espaço e tempo) sejam mais atraentes para labels preocupadas apenas em encher prateleiras. No caso da Chanel (e de outras que participam das apresentações de haute couture), a valorização dos processos artesanais, alguns deles centenários, está no pico das prioridades. Pense nos bordados preciosos e milimetricamente desenhados com diferentes fios, paetês e pedraria nos longos e volumosos vestidos, que não deixam vestígios de imperfeição. Ou ainda no tweed composto de diversos tipos de materiais e cores que você nunca viu antes. Nesse caso, o ateliê Lesage é o responsável por desenvolver as criações da maison fundada por Gabrielle Chanel e de outras labels de luxo. O tweed apresentado nas coleções de pre-fall, chamadas de Métier d’Art e Couture, é feito por lá em teares manuseados por tecelãs que escolhem fio por fio na hora de compor o tecido. Ao lado do artefato, há um guia com o desenho da sequência de combinações. Um tipo de trabalho que parece ser assim desde séculos passados. E, de fato, realmente é.

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Os materiais essenciais na mesa das bordadeiras
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O arquivo com exemplares de tweeds e bordados de outras coleções

Antes de pertencer à família de Albert e Marie- -Louise Lesage, o ateliê do bordador Michonet, fundado em 1858, já servia de fornecedor para os primeiros grandes nomes da história da alta-costura, como Charles Frederick Worth, Paquin e Madeleine Vionnet. Sob comando do casal Lesage, a House of Lesage se tornou rapidamente conhecida por seu savoir-faire de vanguarda graças à invenção de técnicas como o fio reto e o sistema de sombreamento para tons suaves. Com a morte de Albert, seu filho, François, 20 anos, assumiu o negócio. Ao longo de sua carreira, foi considerado o mestre dos bordados à moda antiga e recebeu a condecoração do ministro da cultura da França como um “mestre das artes”. Ele trabalhou para Valentino, Givenchy, Saint Laurent e Thierry Mugler até que, em 1983, com a chegada de Karl Lagerfeld à Chanel, o seu know-how foi direcionado também à realização dos bordados da marca. Além das bordadeiras ágeis e inventivas com seus pingentes, strass, fitas, contas e cristais iridescentes, François decidiu, na década de 1990, desenvolver sua área têxtil e propor tweeds ao kaiser para a área de prêt-à-porter. E, desde 2008, inventa novas versões exclusivas para a alta-costura. Por lá, há desde artesãs jovens e estudantes da Lesage School, inaugurada em 1992, treinando entusiastas do bordado, amadores e profissionais, até senhoras que já estão na casa há mais de dez anos. 

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Uma das etapas para o desenvolvimento dos bordados
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Mesas usadas pelas bordadeiras

No mesmo edifício, se encontra outra preciosidade mantida pela Chanel. Lemarié é o que podemos chamar de uma das últimas “plumassiers” de Paris. Imagine que, quando foi fundada, em 1880, havia cerca de 300 pela cidade. Hoje em dia, todas as plumas e flores (em especial, as camélias) vistas nas coleções da marca saem das oficinas de lá. E o processo segue semelhante ao original. No início, a atividade era dedicada às penas para a ornamentação de chapéus para clientes e cabarés. Tingidas em todas as cores, as plumagens mais preciosas são meticulosamente refinadas, cortadas, coladas e enroladas. André Lemarié, neto do fundador, ingressou na empresa em 1946, começou a apresentar amostras do material para os maiores nomes da moda e ampliou a atividade da casa para criar flores. Assim, Gabrielle Chanel fez da camélia um elemento emblemático da maison na década de 1960. Diferentemente de Lesage, que iniciou sua relação com a label por meio de Karl, camélias, dálias, peônias, cravos, anêmonas, papoulas, tulipas, orquídeas e até rosas, criados com organza, chiffon, tule, couro e veludo e apresentadas nas butiques da Chanel, eram feitos pelo ateliê desde o tempo da estilista. Pelas salas da produção, araras, gavetas e prateleiras mostram o histórico do que já foi criado – para roupas, bolsas, chapéus e sapatos. Já na seção de produção, alguns artefatos com moldes de diversas opções de flores são usados para dar o formato certo para cada tipo. Os acabamentos finais acontecem nas mesas, com cola, costuras e aplicações de outros materiais de acordo com a temática da coleção. 

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Uma peça em processo de finalização com paetês
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Como é feita a marcação antes de começar a bordar no ateliê de Lesage

Em 1996, a Lemarié entrou para as Métiers d’Art, um grupo de casas especializadas em heranças handmade, e, em 2002, foi a vez da Lesage ser adquirida pela Chanel, assim como a Maison Michel, de chapéus, a Goossens, com o foco em ouro e prata, Massaro, com a produção de sapatos, e a Desrues, para a joalheria. A intenção da maison não era tornar os ateliês restritos às criações de Karl Lagerfeld, mas uma forma de dar continuidade a certas técnicas manuais. Hoje, apesar de o endereço de Lemarié e Lesage estarem nos prédios da Chanel, em Pantin, na periferia nordeste parisiense, é possível encontrar peças desenvolvidas para Fendi e Dior, em um encontro quase inexplicável entre labels que, com pouca probabilidade, estariam sob o mesmo teto de fábrica. Com tantas declarações de amor que a Chanel faz à França, esse é mais um dos grandes feitos para a cultura de um país rico em processos artesanais e que, apesar das interferências do tempo, não deixa seus legados morrerem.

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As plumas de Lemariê
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Fitas e tecidos entrelaçados

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