Mode

O terrível Jean Paul Gaultier

por Júlia Tibério
10.01.2017
Jean Paul Gaultier, o enfant terrible da moda francesa, conta por que o prêt-à-porter não lhe cai bem: “É um sistema que não faz sentido”​

O universo gaultieriano é rico em beleza e também em desvios, transgressões e regressões. Marinheiros andróginos, vestidos-corselete, a tara por elementos étnicos e a moda hiperssexualizada e divertida ao mesmo tempo fizeram a fama do estilista Jean Paul Gaultier, que ficou conhecido nos anos 80 como um dos mais geniais da alta-costura francesa. São dele looks memoráveis da cantora Madonna (por exemplo, o sutiã em formato de cone), figurinos inesquecíveis como o de “O Quinto Elemento”, de Luc Besson, e declarações cortantes a respeito do mundo glamouroso das grifes. Em passagem rápida pelo Brasil para o lançamento de seu perfume, ele lembrou de histórias deliciosas e deu opiniões sinceras, fazendo jus ao seu velho apelido de enfant terrible da moda.

Por que criar tantas coleções se as vendas não param de cair?

Por que abrir mão do prêt-a-porter? prêt-a-porter é hoje uma verdadeira linha de produção. Há pouca inspiração, pouca arte. Tudo é determinado pelo departamento comercial e eu não quero criar em cima do que o departamento de vendas me pede.  E as pessoas estão deixando de comprar coisas tão caras e passageiras. Hoje em dia, há muitas marcas baratas fazendo roupas boas, como a Zara, por exemplo. Entre comprar uma peça supercara de temporada ou uma mais barata, quase sempre se opta pela mais barata, a competição está ficando desigual. Você entende? É um sistema que não faz nenhum sentido... Por que criar tantas coleções se as vendas não param de cair? 

Eu é que pergunto. Por quê? A moda vive um momento de caos. E arrisco-me a dizer que isso é um reflexo dos dias de hoje. A nossa sociedade também está um pouco caótica. O mercado fashion reverbera tempos de incerteza, confusão... Pensei nisso quando vi uma grife apresentar uma de suas coleções na Abadia de Westminster, em Londres. É como se até a Igreja estivesse à venda. De repente, trabalhar a imagem da marca virou a coisa mais importante de todas. Não importa o produto, mas, sim, o tal buzz na rede social.

Você acha que esse troca-troca de estilistas é um reflexo desse desarranjo? Acho que sim. Os designers se sentem pressionados. É complicado.

Na sua opinião, qual é o impacto desse movimento para marcas que trocaram de diretor criativo muitas vezes nos últimos anos? É difícil dizer. Mas é óbvio que a essência da grife sai um pouco prejudicada. Na Dior, por exemplo, Maria Grazia fez uma estreia lindíssima, com muitos códigos da maison, mas com referências que remetem a Valentino também. E, de qualquer forma, é um conjunto muito diferente dos que Raf Simons, outro brilhante, apresentava. É confuso mudar tanto de identidade em tão pouco tempo.

Na alta-costura é diferente? Claro, porque você não se baseia tanto no contexto social, olha mais para as suas raízes. Consigo manter a minha essência quando faço alta-costura. A mesma que tenho desde que comecei a desenhar, aos 8 anos de idade após um episódio de bulliyng na escola.

Como foi isso? Uma professora achou que eu havia desdenhado dela ao ilustrar uma fantasia cheia de penas como tarefa de casa e pregou o desenho nas minhas costas. Em vez de os colegas zombarem de mim, me apoiaram. Aquela foi a primeira vez em que me senti parte do todo. De repente o menino que era ruim em futebol e nunca se enturmava virou popular. 

Qual é o seu processo de criação de uma coleção de alta-costura? Depende muito. Para essa última me inspirei em uma viagem que fiz ao Japão. Fiquei encantado com a natureza do lugar e resolvi trazer esses elementos para a coleção. Geralmente meu processo de criação é bem orgânico, vou desenhando o que tenho vontade. Não fico preso ao desejo da consumidora. É um momento em que olho para dentro e me sinto um artista. Vou contar uma história, eu fui um dos precursores desse movimento de usar a camisola como roupa de sair e tudo por conta de um episódio marcante da minha infância. Minha avó era uma enfermeira bastante chique, mas também muito atrapalhada. Um dia, quando eu tinha  uns 8 anos, ela saiu de casa correndo e esqueceu de colocar o vestido principal. Foi para a rua só com a roupa de baixo e um trench coat. Achei aquilo engraçadíssimo, percebi na hora e não disse nada, era uma criança arteira, claro, mas também achei que ela estava tão linda daquele jeito... Mais tarde isso veio a se tornar minha marca registrada. 

A moda está em tudo. Muçulmanas usam véu, políticos usam trajes sóbrios, músicos usam roupas punk... Há uma imagem de moda por trás de cada pessoa.

Acredita que a moda tem um papel transformador? Por mais que as pessoas não percebam, a moda está em tudo, é uma forma de expressão. Muçulmanas usam véu, políticos usam trajes sóbrios,  músicos usam roupas punk... Há uma imagem de moda por trás de cada pessoa. 

Você considera o mercado de fragrâncias diferente disso? Porque dá dinheiro! (risos). E eu gosto de participar da criação das fragrâncias. Realmente vou lá, sinto todos os aromas, palpito... É algo que faço com gosto.

Recentemente, você criou 500 figurinos para um musical em Paris. Que tal a experiência? Fantástica! Sempre quis trabalhar com figurinos e estrear dessa maneira, em um musical com a temática do cabaré, foi incrível. Usei plumas, brilhos, peças de couro... elementos provocativos que eu adoro! Posso dizer que me realizei.

Qual é a mensagem que você gostaria de deixar como legado? A de que a beleza existe em todo e qualquer lugar. Muitas das coisas que crio partem de um visual excêntrico. E, para mim, isso é lindo. Gosto da estranheza, da pessoa fora do padrão, do dia esquisito.

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