Viagem

Berlim de portas abertas

Como um passeio pela capital alemã pode ser surpreendente e mostrar além do que se vê: a complexa e interessante paisagem urbana de uma cidade ainda em (re)construção
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Visit Berlin (Foto: Dagmar Schwelle. Passeio de barco pelas águas do Rio Spree)

Até uma década atrás, a cidade era ainda um destino considerado fora da curva do tradicional roteiro de brasileiros na Europa. A dificuldade do idioma, o clima, certa lembrança ainda presente dos anos nazistas e do Muro acabavam por deixar Berlim e a Alemanha no fim da lista. Porém, nos últimos anos, os mesmos fatores que colocavam a capital alemã no escanteio se tornaram fonte de curiosidade e interesse.

 

Berlim atrai principalmente por sua história. Mas é importante dizer que oferece possibilidades para todos os tipos de viajante. Entretanto, passar por ela e não se dedicar um pouco ao seu passado é desperdiçar a oportunidade de conhecer lugares em que ocorreram alguns dos eventos mais significativos do século 20. Primeira Guerra Mundial, o fim da dinastia Hohenzollern, a República de Weimar, a ascensão do nazismo, a Segunda Guerra, a divisão da Alemanha e de Berlim, a queda do Muro e a Reunificação incluídos. Tudo isso e muito mais se manifesta na arquitetura, nas suas ruas e nos seus habitantes.

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Visit Berlin (Foto: Wolfgang Scholvien. Obelisco da vitória, Siegessäule)

É justamente por esse passado intenso que Berlim não se deixa entender num primeiro olhar. Diferentemente das outras capitais da Europa Ocidental, nas quais o processo histórico se apresenta de forma um pouco mais linear, Berlim tem a peculiaridade de oferecer, em cada esquina, um roteiro próprio, com camadas e camadas de períodos que não apenas se sobrepõem, mas que foram conflitantes uns com os outros. A passagem de sistemas políticos e econômicos antagônicos entre si permite descobrir lugares cujo significado, importância e nome foram propositalmente alterados a fim de apagar os traços do sistema anterior. O que muitas vezes parece ser um simples monumento esconde uma série de reveses. Caso do Castelo de Berlim, que surgiu como um castelo, virou ruína durante a Segunda Guerra, foi colocado abaixo posteriormente e deu lugar ao Palácio da República, na Berlim Oriental. Este, por sua vez, foi literalmente desmontado após a Reunificação. O local ficou ermo por alguns anos, virou um canteiro de obras e hoje vemos, novamente, o Castelo, idêntico à sua versão de 1700. Só passar por ali não dá a dimensão de todas essas transformações. Para entender um pouco da dinâmica da cidade, é aconselhável um mínimo de leitura prévia ou o acompanhamento de um guia.

 

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Visit Berlin (Foto: Philip Koschel. Vista noturna da Catedral de Berlim)

Além disso, Berlim talvez seja o lugar mais difícil para responder à pergunta: é original? O misto de reconstruções parciais e totais devido aos devastadores bombardeios durante a Segunda Guerra e as diferentes políticas de reforma urbana nas décadas pós-guerra – a de Berlim Ocidental e a de Berlim Oriental – nos obrigam a repensar o conceito. A paisagem da cidade é um verdadeiro quebra-cabeças de peças antigas e novas: há o idêntico ao original, o original parcialmente modificado, o praticamente novo com um pedaço original e infinitas variantes de respostas a essa pergunta, que só uma cidade quase inteiramente reconstruída permite.

 

Um exemplo de mudança radical na paisagem urbana em um período curto de tempo é a famosa Potsdamer Platz. No início do século 20, era um ponto fundamental de ligação de trânsito entre a Berlim “antiga” e os novos bairros na parte ocidental. A praça era repleta de construções residenciais e comerciais e de intenso movimento de carros, bondes, trem e pedestres. Ficou em ruínas ao fim de 1945 e, antes que ali chegassem os trabalhos de reconstrução, veio o Muro de Berlim, que ficou de pé entre 1961 e 1989. Nesses anos, o local se torna uma “zona de ninguém”, como comumente eram as áreas próximas ao Muro. Hoje, 30 anos depois de sua queda, a praça é repleta de edifícios modernos, que em nada lembram as épocas anteriores.

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Foto: Vive Berlin E.G. - Cadetral de Berlim

Outra curiosidade frequente para os visitantes é como os alemães lidam com a parte mais complexa de sua história, o período nazista. Uma boa forma de ter uma ideia sobre o tema são os diversos Memoriais – como a Topografia do Terror, no centro da cidade, e o Memorial e o Museu do Antigo Campo de Concentração de Sachsenhausen, o famoso “campo da capital”, localizado na cidade de Oranienburg, a uma hora de trem de Berlim. Em ambos, o tema é tratado em exposições com fotografias e documentos originais da época, acompanhados por textos provenientes de muita pesquisa e investimento no próprio passado. Esses e outros memoriais são gratuitos e refletem a responsabili - dade e a transparência com que os alemães vêm revendo criticamente a própria história após a reunificação do país – um exercício muito interessante, com o qual podemos aprender muito.

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Foto: Vive Berlin E.G. - Pátio Hackesche Höfe

É fundamental lembrar também da Berlim que pode ser mais leve, com sua intensa vida noturna, a gastronomia do mundo todo e de preços justos, seus parques, compras para todos os gostos e bolsos, as inúmeras coleções de arte e museus. Para quem quiser ir além do entretenimento, há ainda muita história: os espaços abandonados pós-queda do Muro, onde aconteciam festas sem limites, o intenso fluxo de imigrantes, que acontece há décadas (como isso delineou novos hábitos alimentares na cidade), os parques feitos com escombros da guerra ou destruídos e replantados, como o Tiergarten, a relação dos alemães com o consumo e como ele foi influenciado pelas experiências da guerra, da divisão e da reunificação da cidade, as coleções de arte, que remontam à monarquia do século 17 e foram parcialmente destruídas, escondidas, roubadas, divididas, restituídas e que hoje crescem e se diversificam – sem falar das centenas de galerias de arte contemporânea que se multiplicaram a reboque da vocação multicultural da cidade.

 

Berlim é esse enorme mosaico. Aventurar-se na cidade e conhecer um pouquinho de tudo o que ela oferece é, sem dúvida, uma experiência inesquecível e, para quem assim quiser, transformadora.

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