Viagem

Tempo Rei: Explore a natureza, gastronomia e cultura do Maranhão

Berço dos doces de buriti, das galinhadas e do arroz de cuxá, o Maranhão guarda um dos parques nacionais mais importantes do mundo
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O convite para ir ao Maranhão partiu da Auroraeco, agência com raízes nos destinos de natureza e de valor histórico-cultural, focada nas experiências gastronômicas, navegações e viagens ativas. A ideia da marca é que cada pessoa vivencie o lugar a sua maneira, aproveitando o que ele tem de melhor. No meu caso, a trip começou após um voo de três horas e meia de São Paulo para São Luís, onde passei a noite.

Na manhã seguinte, André, o meu guia, já me esperava no lobby do hotel para me acompanhar até o vilarejo de Sangue e de lá rumo ao primeiro ponto da expedição, em Santo Amaro do Maranhão, num percurso de 230 quilômetros. A pousada Rancho das Dunas, com seus chalés avarandados e redes voltadas para o jardim, foi o endereço escolhido para o pernoite. Deu tempo de almoçar e partir para um breve passeio de reconhecimento pelas dunas para ver o pôr do sol. Diria que foi um presente de boas-vindas.

Já nos trechos seguintes, um carro 4x4 passou a ser o transporte utilizado na aventura rumo às Lagoas das Gaivotas e das Andorinhas, duas das paisagens fundamentais de Santo Amaro. Os veículos que transitam nessa área são “credenciados e adaptados para percorrer o terreno arenoso e alagado da restinga dos Lençóis Maranhenses”, avisa a webpage do Parque Nacional – lar de manadas de cavalos selvagens, que se refrescavam por ali. Aproveitei cada pausa para conversar com os pastores de cabras sobre o lugar.

O carro estacionou na base de um desses bancos de areia e caminhei entre eles percebendo como o vento, morno e infatigável, produzia pequenas ondas n’água.

No dia seguinte, depois de um café da manhã abastecido de água de coco, tapiocas e frutas locais, fiz o primeiro trekking do tour, iniciando pela lagoa da Vargem Grande e passando pelas lagoas da Sonda, das Emendadas, das Cabras e do Murici. Dica: na mo- chila, sempre levar muita água, frutas secas, barras de cereais, protetor solar e algumas peças de roupas, entre as quais, short, camiseta com proteção ultra- violeta, maiô e chapéu. Eu ainda tinha comigo mais um par de meias curtas para abrigar os pés no decor- rer das caminhadas.

A proposta de imersão da Auroraeco, em que você se lança nesses territórios de forma diferencia- da, foi garantida pela equipe que conduziu a progra- mação. Os guias trouxeram o cotidiano e a cultura das comunidades que vivem nos entornos, apontaram as características dos biomas presentes nesse ponto do mapa brasileiro – Cerrado, Caatinga e Amazônia –, e relataram a importância deles para o ecossistema. A cada fechar de olho, uma lagoa surgia, umas mais fundas, mais escuras, outras mais rasas e transpa- rentes, a exemplo da Lagoa do Junco – minha predi-

leta –, dona de tons de verde e azul, e que parecia ser apenas minha. No trajeto até Betânia comi frutas colhidas na hora e consegui registrar a revoada dos pássaros em busca de alimento. Andei por cerca de três horas até avistar duas pequenas embarcações que levam os transeuntes ao restaurante Novo Ho- rizonte. Entre as qualidades da casa, a simplicidade e o sabor das receitas preparadas com ingredientes locais, a peixada (peixe cozido regado a leite de coco) foi a minha escolha. Sobremesa aprovada, descansei no redário protegido pela sombra dos cajueiros por quase uma hora antes de pegar a estrada com desti- no ao município de Barreirinhas.

Dono de um estilo rústico-contemporâneo, o Porto Preguiças Resort foi selecionado pela Organi- zação das Nações Unidas (ONU) como um dos 500 empreendimentos onde foram implementadas solu- ções de vanguarda para a causa ambiental. A área de 200 mil metros quadrados do complexo oferece aos hóspedes 44 apartamentos, restaurante, pisci- nas, quadras de tênis, salões de jogos e espaços para crianças. Uma das atividades obrigatórias por lá é o passeio de caiaque no rio Preguiças, em que se pode relaxar e conferir de perto a diversidade da flora e a beleza das aves.

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Nem bem a alvorada se fez e cruzamos novamente o Preguiças – dessa vez a bordo de uma rabeta, tipo de lancha utilizada com frequência pelos ribeirinhos –, para chegar ao Porto de Campo Novo. A equipe atracou no meio do caminho e seguiu em um pequeno barco a remo chamado de “paco paco” até o Igarapé do Alazão. Próxima à chegada, observei o movimento das pás que abastecem os aerogeradores do parque eólico, lembrando gigantescos cata-ventos brancos. A instalação do sistema colocou o Maranhão no ranking das regiões que diversificam a matriz elétrica de seus países, através da produção de energia renovável, como também acontece no Rio Grande do Norte e no Piauí.

Por aquelas bandas, à beira do rio, havia casas cobertas de palha com cercas de pau a pique. A canoa ficou na praia e lá fui eu para o trekking pelos Pequenos Lençóis, de Alazão até Vassouras. Junto com o André, da Auroraeco, um morador da região se juntou a nós, e durante o passeio explicou toda a história da região, além de contar sobre as habitações que servem de base de apoio para os pescadores, casas simples ao lado de gigantes cata-ventos, mostrando o contraste da tradição e da modernidade.

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Durante a travessia pelo vilarejo, os casebres saltavam aos olhos como lares abandonados, porém, na medida em que me aproximava, notava que ali era um lugar de sobrevivência. Passei por outros vilarejos, inúmeras dunas e fiz uma pausa no barracão da Graça, cuja estrutura lembra um quiosque de grandes proporções, restaurante turístico, mas típico. Bem arejado, o local tem música ao vivo e longos bancos de madeira com mesas cobertas de toalhas de plástico colorido (as apresentações ainda estão suspensas por conta da pandemia). Sem cerimônia alguma, macacos-prego circulam livremente, por vezes tentando descobrir algo saboroso em nossas mochilas.

Após o almoço, fui ao centro de Mandacaru para conhecer o Farol Preguiças, uma construção de 1940, que pertence à Marinha do Brasil. Pintado com listras brancas e pretas, o prédio de 40 metros de altura oferece vista panorâmica. O povoado que se formou na vizinhança, cortado por ruas de areia, tem a pesca, a agricultura e o artesanato da palha de buriti como as principais fontes de renda.

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Voltei à estrada para a etapa final dessa jornada, em Atins. Extasiada com a beleza dos Lençóis, permaneci parte do tempo hipnotizada pelo horizonte. Senti saudade de cada pedaço dessa terra – morada da simpatia –, e compreendi a escolha do francês Pierre Bident Moldeva e do belga Olivier Verwilghen em estabelecerem a Le Ferme de Georges na região.

Tranquila e descolada, Atins poderia ser definida como uma mistura de Trancoso, na Bahia, e Jericoacoara, no Ceará. Não é à toa que a pousada de estilo rústico-chic lembra uma aldeia revisitada com seus nove chalés construídos a partir de materiais orgânicos – a madeira, o tijolo e a palha –, dispostos para aproveitar ao máximo a luz solar e a ventilação natural. O projeto paisagístico valorizou as espécies nativas e organizou a produção da fazenda que abastece o restaurante com frutas e verduras orgânicas – e que estimula a participação dos convidados na manutenção das plantas e na coleta dos ovos.

Além de provar as caipirinhas e interagir com os outros turistas, a programação do Le Ferme organiza para seus hóspedes várias atividades, desde aulas particulares de kite surf (esporte em alta) e passeios de quadriciclo.

Para terminar o dia da melhor forma possível, Facundo, argentino radicado no País há mais de dez anos e proprietário da Sempre Atins, me levou para uma cavalgada de aproximadamente três horas, que se passaram como minutos entre dunas e lagos onde pude contemplar, com certeza, o cair do sol mais bonito de toda a minha vida.

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No dia seguinte, a última caminhada, entre o deserto de lagoas, foi a mais esperada, com sete horas de duração. Saí de madrugada e enfrentei a escuridão. Na passagem pelo distrito de Santo Inácio dava para sentir até o cheiro de café coado escapando das pequenas casas coloridas. Alguns quilômetros se passaram e o subir pelas areias brancas já não parecia mais tão íngreme. Parei várias vezes nas lagoas para descansar e me refrescar, e aproveitei o relax para curtir os pequenos grupos de cabras, sempre curiosas e desconfiadas. As dunas são mágicas, imponentes, delicadas e formam desenhos orgânicos que dançam com o vento. Despedi-me da travessia na lagoa da

Ilha, minha favorita em Atins. Em todo o trajeto era uma surpresa atrás da outra. Por um momento, o lugar soou como um parque de diversões para mim, a única criança presente.

Descia algumas dunas correndo e em outras eu apenas me sentava e escorregava até a água gelada. Antes de regressar para Barreirinhas e depois para a capital São Luís, onde peguei o voo de volta para São Paulo, o sentimento de renovação foi absoluto. Algo que tem a ver com a maneira como nos relacionamos com a natureza, com o outro e com nós mesmos; gentileza, eu diria.

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