"A gente tem a ousadia de sugerir como a moda deveria ser", diz Emicida
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"A gente tem a ousadia de sugerir como a moda deveria ser", diz Emicida

Raízes, memória afetiva, samba e Dona Jacira: a fórmula de ouro que encerrou a SPFW 43.
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Depois de um desfile de estreia histórico na SPFW, em setembro do ano passado, a Lab Fantasma tinha a difícil tarefa de atender às expectativas que se formaram em torno de sua segunda coleção. Emicida e Evandro Fióti assumiram a responsabilidade de manter o alto nível das roupas – e das mensagens por trás delas – com uma tranquilidade digna de veteranos do (nem sempre amistoso) mundo da moda. 

Conversei com os irmãos minutos antes de a apresentação começar, em meio às araras das roupas que logo seriam reveladas para todo o público e a modelos, assessores e maquiadores que corriam para deixar tudo pronto a tempo. Perguntei como a coleção de agora se relaciona à anterior, já que as duas, de formas diferentes, falam sobre as raízes africanas. "A primeira coleção falava sobre África, mas de um jeito não óbvio. Era pra quebrar o lado japonês da história, fugir do senso comum. Aquela imersão numa África meio japonesa deixou a gente encantado, refletindo pra onde ia levar a história nesse ano. A gente trouxe o samba pra falar de Brasil, contar as histórias na nossa perspectiva", respondeu Emicida. 

O samba foi um dos pontos-chave do desfile, que teve como tema a herança e as raízes – tanto da dupla quanto do país. A infância e a memória afetiva dos irmãos, que cresceram na Zona Norte de São Paulo, também tiveram um papel fundamental na concepção das roupas, e inspiraram o ponto alto da coleção: os bordados de Dona Jacira, a mãe de Leandro (ou Emicida, se preferir) e de Evandro. Quando tocou no nome da mãe, o cantor ganhou uma expressão mais leve, como se esquecesse que estava ali falando de trabalho – era muito mais do que isso, afinal. 

"Quando você vê as peças, principalmente as bordadas pela minha mãe, percebe que tem uma narrativa que ela conta. Ela abre algumas histórias sobre a infância dela, que é uma forma interessante de olhar pra nossa própria infância. Os ambientes eram muito parecidos, tinha uma coisa meio rural de mato, rio". Ele interrompeu o pensamento e disse: "Ao invés de ficar falando, vamo ali ver o bagulho". Fomos ali ver o bagulho, claro. O cantor foi direto em direção à jaqueta confeccionada por sua mãe, com uma explosão de cores e detalhes muito ricos, de uma delicadeza emocionante. "Minha mãe só sabe bordar se tiver uma história pra contar". Entre as personagens da história, estava Nzinga, rainha africana do século XVII e ícone de resistência da história de Angola. 

São as histórias que [Dona Jacira] gostaria de ter contado há 50 anos, mas não teve a oportunidade. Ela teve que trabalhar em três empregos e estudar à noite, então parou de bordar por muito tempo. Agora, voltou com a intenção de contar a história dela.
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Comentei que, no Brasil, por causa da escravidão, muitos negros não conhecem as suas raízes, os países de onde vieram seus descendentes. "Isso teve um peso na coleção?"

"Isso sempre tem um peso, porque é uma história complexa", ele disse. "A forma como as pessoas africanas foram sequestradas e trazidas pro Brasil quebra esse vínculo da ancestralidade, e é atrás desse vínculo que a gente corre. Cada vez que a gente reconta a história sobre as nossas raízes, a gente ajuda as pessoas a darem um passo em direção à sua ancestralidade".

A Lab teve o casting mais diverso da SPFW: modelos (e não-modelos) negros dominam a apresentação, que conta ainda com mulheres gordas, baixas e trans. Por lá, a diversidade não é só discurso na passarela, é também prática: a marca tem uma grade de tamanhos muito extensa, que vai do 36 ao 58. Isso é raro na indústria da moda, especialmente para as marcas pequenas, já que a produção encarece consideravelmente.

Segunda Fióti, a batalha para que os fornecdores concordem em atender a tantos tamanhos é diária: "A gente acredita que precisa ter produtos que tragam esse público [plus size] para dentro da marca. É muito difícil fazer 38 looks, que é o que a gente tá lançando, todos com a grade estendida. Não tem capacidade financeira e de consumo que dê vazão a essa quantidade. Então a gente escolhe a dedo quais vai conseguir estender. Na coleção passada, alguns produtos esgotaram super rápido, as pessoas pediram mais, mas a gente não consegue atender 100%, infelizmente". 

A forma como as pessoas africanas foram sequestradas e trazidas pro Brasil quebra esse vínculo da ancestralidade, e é atrás desse vínculo que a gente corre.
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"E a trilha sonora?", perguntei. "Vai ser foda. Pensando nessa coisa de desconstruir, que é o que a gente fez com a bandeira, com a camisa listrada do malandro, quisemos fazer o mesmo com a trilha. Pegamos um samba enredo e tiramos quase tudo dele. Nossa trilha começa só com a voz e mais nada, porque é como se a gente dissesse pro mundo: a coisa mais importante pra fazer agora é conversar". A voz foi da poderosa Fabiana Cozza, que, ao longo de todo o desfile, cantou clássicos como 'Alguém Me Avisou', de Dona Ivone Lara.

Para Emicida, tudo o que gira em torno da Lab Fantasma serve como inspiração também para a música. "Cada vez que eu vou escrever, me esforço muito pra me superar. Aqui, a gente tem a oportunidade de ver a história sendo escrita. Num tempo tão tenebroso como esse, a gente é muito grato por poder viver de música, da nossa arte. E a gente ainda tem a ousadia de sugerir como a moda deveria ser". 

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