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Queda de cabelo e covid-19: existe relação?

Além de inúmeros prejuízos gerados pela Covid-19, a queda de cabelo pode ser uma delas. Saiba mais!
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Foto: Reprodução/Instagram @pernilleteisbaek

Queda de cabelo é uma queixa frequente no consultório dermatológico. E ela tem se tornado ainda mais frequente nesse momento de pandemia. Assim como outras consequências decorrentes da Covid-19, os efeitos posteriores estão sendo descobertos ao mesmo tempo em que se busca saber mais sobre a doença. Além de prejuízos relacionados com olfato, paladar e respiração, após o fim do ciclo do vírus no corpo, há relatos de queda de cabelo acentuada após a infecção. O principal diagnóstico? É o chamado Eflúvio Telógeno. Trata-se do encurtamento do ciclo de vida dos cabelos. O fio tem três fases: anágena (fio em crescimento), fase catágena (fio maduro ainda no folículo), fase telógena (fio em queda já destacado do folículo). A maioria dos fios estão em fase de crescimento no couro cabeludo. O Eflúvio Telógeno ocorre quando, por alguma razão, os fios que deveriam estar em fase de crescimento, pulam para a fase de queda. "Como uma pessoa que ao invés de morrer de velhice, morre jovem em um acidente de carro”, compara o dermatologistacDr. Daniel Cassiano, da clínica GRU e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia. E alguns desses motivos podem estar ligados diretamente à pandemia, por causa da infecção pelo vírus

Para sabermos mais sobre essa relação, a dermatologista especialista em tricologia Andrea Frange, da Clínica Luciana Garbelini de São Paulo, destaca alguns aspectos: “As possíveis causas de queda de cabelo como uma das decorrências do coronavírus ainda ficam no campo das probabilidades, como tudo ligado a esse vírus. No entanto, já se sabe que o covid pode causar o eflúvio telógeno agudo, quadro este que acontece quando há uma perda de cabelo acima do normal”.

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Foto: Element5 Digital /Unsplash

No geral, essa queda acentuada pode ser uma das formas de o corpo refletir problemas ou transformações que o organismo passou ou vem passando nos últimos tempos. Naturalmente, há uma queda fisiológica de fios, que pode ser de até 100 fios por dia. Se um paciente apresenta queda de muitos fios e está notando diminuição no volume dos cabelos, isso deve ser investigado. Os gatilhos para isso são vários. O uso de medicamentos, por exemplo, - como antibióticos e alguns anti-inflamatórios - e infecções de uma forma geral. Cirurgias, estresse físico e psicológico, até luto. Além de perda de peso, má qualidade do sono ou comprometimento da alimentação, e consequentemente do fornecimento de nutrientes importantes para o organismo, também podem ter relação com a queda.

De acordo com Andrea, na covid acontecem alterações inflamatórias no organismo que podem ocasionar o quadro.  “E, pelo que tem se observado, parece que essa queda do cabelo acontece antes - com cerca de dois meses após o fato gerador - quando comparada a outras situações que também podem ser gatilhos para o quadro. E que a queda ocorre com três meses”. A dermatologista ainda diz que é preciso ter mais atenção se tratando de pacientes que já tem alguma questão que envolva queda de cabelo, caso estes venham a desenvolver covid. “É necessário observar como isso vai impactar no cabelo, se vai apresentar uma queda mais acentuada quando comparada ao seu histórico capilar.”

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Foto: Reprodução/Instagram @pernilleteisbaek

Pós-Covid: A doença Covid-19 causa uma infinidade de complicações aos pacientes, mesmo algum tempo após a recuperação. Vários estudos mostraram que aqueles que se recuperaram da infecção tinham problemas pulmonares e cardíacos. Agora, pacientes relatam também a queda de cabelo. “A perda de cabelo é um fenômeno bem descrito após qualquer estresse fisiológico no corpo. Embora ainda não tenhamos estudo científico sobre o assunto, essa queda pode estar ligada ao estresse físico e psicológico que os pacientes vivenciaram com a infecção”, diz Dr. Daniel Cassiano. “A queda de cabelo nessas situações não é um fenômeno surpreendente, já que as pessoas começam a notar o eflúvio telógeno cerca de três meses depois de adoecer”, afirma.

Luto: Quando os médicos alertam que o estresse pode acentuar a queda capilar, eles não estão se referindo a complicadas situações do dia a dia. “O estresse e os diversos sentimentos vivenciados por pessoas que experimentam uma situação traumática de luto pode afetar a saúde capilar e causar o eflúvio telógeno. Principalmente no caso do Covid-19, em que a morte pode ser muito rápida, os familiares podem experimentar um estresse muito forte que altera o ciclo sono-vigília, altera os hábitos alimentares e padrão de sono. E tudo isso acentua a queda de cabelo”, afirma o Dr. Daniel. O estresse também não é a causa, mas pode ser o gatilho para a ocorrência de uma doença autoimune, que acomete os cabelos e pelos do corpo, chamada de alopecia areata. “Nessa doença, placas de pelada acometem tanto o couro cabeludo como qualquer área com pelo no corpo e o estresse pode ser o gatilho para a abertura do quadro. Na alopecia areata pode haver perda total dos cabelos”, explica o médico.

Dieta: Dietas restritivas ou alimentação nutricionalmente pobre durante a pandemia fazem o organismo digerir a energia apenas para funções essenciais de funcionamento do corpo, deixando de lado a nutrição e oxigenação de tecidos como cabelo e pele. Por esse motivo, um dos principais sintomas físicos de uma alimentação deficitária é a queda de cabelos. “Com relação à nutrição, anemia ferropriva e deficiência de zinco, Vitamina B12 e Vitamina D podem também ser causas de Eflúvio Telógeno”, explica o Dr. Daniel. Segundo a médica nutróloga Dra. Marcella Garcez, professora e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), as carências de vitaminas, minerais, proteínas, gorduras e carboidratos de boa qualidade também impactam na saúde dos fios e do couro cabeludo. Seu cabelo é composto principalmente de proteínas, portanto, incluir quantidades adequadas em sua dieta é vital para o crescimento do cabelo. Aproximadamente 85% do cabelo é formado de queratina, que é uma proteína, e por ser um tecido de excreção, é formado de aminoácidos sobressalentes para essa função. “Se não houver sobra de aminoácidos, não há boa síntese de queratina. Além disso, minerais metálicos como ferro e cobre além de vitaminas do complexo B como a biotina participam da manutenção da saúde capilar”, diz a médica nutróloga Dra. Marcella Garcez. Se você tiver carência desses nutrientes, seu cabelo irá cair mais num quadro intenso (eflúvio telógeno), a textura dos fios pode mudar, além de ficarem mais fracos e propensos à quebra. “O excesso de açúcar na dieta pode comprometer a saúde dos folículos capilares aumentando a possibilidade de eflúvio (queda de cabelos)”, diz a Dra. Marcella. 

 

O que fazer?

Embora essa queda de cabelo esteja relacionada a um evento infeccioso ou cirúrgico, estresse emocional e por dieta seja apenas temporária, ela também pode ser angustiante.

Dra. Andrea explica que é importante ficar atento se o padrão de queda foge ao normal, sendo importante passar pela análise de um especialista. “Só ele poderá avaliar o quadro e indicar o tratamento ideal para cada caso”. Manter os fios limpos e secos, evitar tração excessiva, desembaraçar com cuidado, são atitudes simples e que devem ser seguidas no dia a dia. “Mas se a queda for programada, ou seja, se o organismo do paciente já iniciou o desprendimento a partir de um gatilho, ela vai acontecer de qualquer forma. Por isso é necessário orientação médica para avaliar a causa do problema e todas as circunstâncias que podem estar envolvidas na queda,” finaliza. Dr. Daniel recomenda uma nutrição adequada, especialmente comendo alimentos ricos em ferro, proteínas, Vitamina C e vitamina D. Além disso, os suplementos para queda de cabelo podem ajudar a restaurar a saúde do cabelo, reduzindo a sua queda.  “Os nutracêuticos variam muito quanto aos componentes, concentração e posologia, mas costumam ter biotina, pantotenato de cálcio, queratina, cistina e algumas vitaminas”, explica. O eflúvio telógeno é indolor e não envolve outros sintomas, como coceira e descamação. “No entanto, quando os pacientes apresentam queda de cabelo importante com ou sem outros sintomas, como sensação de queimação no couro cabeludo, eles precisam ser avaliados por um dermatologista”, finaliza.  

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Foto: Jessica Felicio/Unsplash

Segundo a dermatologista Paula Amorim, responsável pelo núcleo de tricologia da Clínica Juliana Piquet, no Rio de Janeiro, não só o covid, mas outros vírus como o da dengue, influenza, HIV e infecções que causam febre, como pneumonia, tuberculose e malária, também podem estar associados à queda de cabelo e a queda se inicia, em média, de dois a quatro meses após a infecção. “Existem relatos de quadros mais precoces, com início um mês após a doença. O período de queda pode se manter por 3 a 6 meses, de intensidade variada. Vale salientar que quadros muito intensos devem chamar a atenção, e a consulta com o dermatologista é essencial no processo”.

Em relação ao melhor tratamento, Paula afirma que não existe um tratamento específico para a queda pós-covid. “O tratamento costuma ser o mesmo dos demais quadros de eflúvio telógeno e em grande parte dos casos pode ser autolimitado. Quando o volume de fios perdidos é muito intenso ou se estende por um longo período, podemos lançar mão de tratamentos na clínica com MMP (Microinfusão de Medicamentos na pele), Microagulhamento robótico com drug delivery ou Mesoterapia. Em todos eles, aplicamos medicações que vão agir no folículo, acelerando a entrada na fase de crescimento do ciclo capilar e revertendo a queda. Já os tratamentos diários podem ser feitos com loções contendo corticoide ou minoxidil e a indicação pode variar de acordo com cada um”, entrega.

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Foto: Reprodução/Instagram @pernilleteisbaek

Segundo a terapeuta capilar Cintia Araujo, do TP Beauty Lounge, em média dois clientes por semana chegam ao salão reclamando da queda de cabelo, seja em função do vírus ou da preocupação que ele causa. “O Eflúvio Telógeno é temporário e se dá entre 3 e 6 meses. Nessa fase, o couro cabeludo pode ficar mais sensível e dolorido ao pentear, prender etc. O terapeuta capilar, nesses casos, vai entrar com a reposição de sais minerais, proteínas, colágenos, lipídios e ácidos graxos. Ou seja, tudo que compõe a parte de suplementação capilar para fortalecer o fio e calcificar a haste do bulbo. Os tratamentos indicados no salão são a Fototerapia, que estimula a irrigação sanguínea e faz com que os nutrientes que você coloca na terapia capilar fixem melhor na parte da papila dérmica, ou a Laser Terapia na função de eflúvio telógeno”, afirma Cintia.

De acordo com a terapeuta, para evitar a queda dos cabelos, é ideal que a pessoa já insira em sua rotina alguns cuidados, como evitar lavar os cabelos sem necessidade e, sempre que lavar, usar um tônico para fortalecer a haste dos fios. Cintia afirma que o couro cabeludo necessita de vários nutrientes para se fortalecer com a queda, como proteína, ferro, vitaminas C, D, E e F. “Esses nutrientes podem ser ingeridos via cápsula ou através da alimentação e devem ser receitados por um dermatologista ou tricologista, de acordo com cada caso”.

No salão, a especialista detalha como funciona o tratamento. “O tratamento de suplementação capilar dura em média 2 horas. Primeiramente, vem a parte de peeling do couro cabeludo, para remover as células mortas, controlar a oleosidade e melhorar a microbiota, no caso de fungos e bactérias. Depois, a higienização, com shampoos com ativos para fortalecer e minimizar essa queda, e uma reconstrução, onde são escolhidos alguns suplementos, como proteínas, aminoácidos, sais minerais e ácidos graxos, para melhorar a qualidade do fio e o afinamento causado pela queda. Em seguida, é feita uma nutrição ou hidratação, de acordo com o diagnóstico feito pelo terapeuta, e a secagem do couro cabeludo e do fio, evitando a tração mecânica, como escova, prancha e babyliss (na terapia capilar, é preciso esquecer essas ferramentas que mecanicamente já trazem queda para o cabelo). Para finalizar, a laser terapia ou fototerapia na função de eflúvio telógeno”.

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Foto: Element5 Digital/Unsplash

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