Cultura

Dez anos de uma guerra que não chega ao fim

A Síria é protagonista de um dos piores conflitos da atualidade, que já colocou mais de 13 milhões de pessoas em situação de refúgio.
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Foto: Essa Mhmad/Unsplash

O que começou com protestos populares não violentos, inspirados na Primavera Árabe, no fim de 2010, logo se tornou estopim para chancelar uma das mais sangrentas guerras da era moderna. O palco dos conflitos é a Síria, um país cujas dimensões se iguala as do estado do Paraná, no Brasil. 

O tom crítico que exigia governo democrático, liberdade de imprensa e direitos humanos foi reprimido com armas pelo exército do ditador Bashar al-Assad. No dia 15 de março de 2011, alegando que os manifestantes eram “terroristas”, Assad deu start para o combate. Em pouco tempo, a instabilidade política e as revoltas entre diferentes etnias locais abriram espaço para as ambições do Estado Islâmico. A guerra estava no ar.

Ainda incrédulo, o povo passou a ser alvo dos ataques. No dia 1º de abril, as forças militares mataram 11 civis – e uma década depois, de acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, mais de 380 mil pessoas perderam a vida e 13 milhões de sírios se tonaram refugiados. O maior e mais sensível deslocamento humano do século 20 obrigou as nações a repensarem as suas fronteiras. Houve quem impedisse duramente o acesso dos imigrantes, mas também teve quem acolheu. 

Segundo o relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), até 2018, cerca de 71 milhões de seres humanos foram forçados a deixar os seus locais de origem, desse total, 6,7 milhões são sírios. O Brasil recebeu perto de cinco mil refugiados, sendo 35% vindos das zonas de conflito da Síria. Neste contingente, estão a relações públicas Joanna Ibrahim e a designer de moda Hayam Abo Kasem.

Joanna Ibrahim 

“Quando cheguei aqui, não falava nada da língua portuguesa, e o único jeito de sobreviver era arrumando emprego. Procurei algo para fazer e explorar a minha criatividade. Havia estudado nos Estados Unidos e no Líbano, conheço bem design gráfico, relações públicas e a área de recursos humanos, mas foi em uma esfiaria de bairro que encontrei oportunidade. Tempos depois, ao lado da minha tia e da minha avó comecei a fazer comida síria sob encomenda. Mas, de novo, a barreira do idioma nos trouxe dificuldades, além de não sabermos as regras de empreendedorismo no Brasil e de sermos mulheres... Aqui também existem problemas para mulheres que buscam independência financeira! Sinto saudade da Síria antes da guerra. Eu tinha uma vida legal – era relações públicas em uma empresa internacional. Então a guerra mudou tudo, ficou perigoso morar lá, e tivemos que fugir. Sinto-me acolhida aqui, mas desamparada na questão de empreender (embora tenha percebido que o povo local também não conta com apoio para abrir um negócio próprio). A realidade brasileira é diferente de outros lugares para startups, mas pelo menos não existem bombas explodindo no seu quintal.”

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Hayam Abo Kasem

“Havia estudado design de moda na Síria, em uma importante universidade de origem francesa. Minha família e eu viemos para o Brasil por causa da guerra. Claro que todos nós tivemos problemas com o idioma e com as diferenças culturais. A menina árabe é educada dentro de tradições mais conservadoras, no entanto, soube me adequar aos costumes locais sem deixar de lado aquilo em que acredito. Ainda não conheço muita gente da minha área, o que cria uma barreira para seguir o sonho da profissão. Porém, acredito que vou conquistar espaço na moda e, quem sabe, realizar um desfile especial que combine as culturas do meu país e do meu novo lar. Sou uma mulher refugiada, que deixou para trás uma história de vida feliz e gente querida para se sentir segura. Sou grata ao Brasil, que me deu uma nova oportunidade de recomeçar.”

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