Moda

Influência criativa: como novas designers têm usado as redes para impulsionar suas marcas

Uma nova geração de influenciadoras aprende cedo a usar o Instagram como um meio para alavancar suas grifes cheias de personalidade, e não um fim para egotrips e endossos vazios
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Ana Clara Watanabe e Cecilia Gromann, dupla à frente da grife Anacê. Foto: Tom Barreto

A moda vive uma relação de amor e ódio com o Instagram, e não é de hoje. Ferramenta essencial para o surgimento e a consolidação de novas celebridades digitais, a plataforma também transformou a comunicação do setor e vem impulsionando a renovação da cena com uma geração esperta de jovens – muito jovens! –, para quem os looks do dia já não são mais suficientes. 

 

Depois das mudanças no algoritmo do app e com o sumiço dos likes, é preciso mais do que caras maquiadas, bocas pintadas e roupas emprestadas para ser relevante na timeline. Enquanto as pioneiras da influência tentam se renovar perante os milhões de followers cansados de “recebidos” e falsos endossos, outra turma dá de ombros para números superlativos, constrói a sua força com parcerias autênticas e, sobretudo, solta um grito de independência ao desenvolver marcas próprias, nas quais a roupa vendida é uma extensão da personalidade de suas criadoras.

 

É claro que um belo feed é sempre um ótimo cartão de visitas, mas é preciso deslizar um pouco mais o dedo no universo de Luciane Sakon, Cecília Gromann e Ana Clara Watanabe para perceber o movimento discreto e seguro que legítimas representantes da Geração Z estão promovendo no mundo on e offline. Todas são do interior paulista, mas possuem referências e personalidades bem diferentes. Ainda bem. 

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Luciane Sakon é influencer, designer e modelo das roupas minimalistas que faz para a sua marca Haye há dois anos

Luciane é de Suzano, se formou em moda na Faculdade Anhembi Morumbi, em São Paulo, em 2013. Tem 27 anos. Dona de um senso estético apuradíssimo, é adepta do minimalismo e nunca idolatrou nenhum grande nome do circuito global, como é comum entre estudantes de moda. No lugar de Miuccia Prada, Karl Lagerfeld e Marc Jacobs, seu olhar aponta para os perfis de influenciadoras dinamarquesas, como @sophiaroe e @ josefinehj. “Gosto da proposta de vida real delas, com peças sendo repetidas nas produções, usadas com variações de styling, como eu e muitas amigas fazemos. Ninguém tem 10 mil pares de sapatos no armário!”, justifica.

 

Otimizar o closet e apostar em peças versáteis, atemporais e fáceis de combinar no dia a dia passou de estilo pessoal a negócio quando lançou a Haye (@haye_clo), há dois anos. Indicada como profile to follow pelo portal brasileiro de moda jovem Steal the Look, ela viu seus números explodirem em tempo recorde e decidiu testar ali, via direct message, o seu sonho de ser estilista. Lançou uma coleção cápsula de camisetas de veludo oversized em tamanho único e atendia pessoalmente os pedidos que chegavam inbox. 

 

Ficou nessa por quase um ano até que percebeu que a demanda era suficiente para dar um passo adiante. Luciane decidiu então profissionalizar o business, montou um site, criou uma etiqueta, aumentou a produção. Hoje vende para o Brasil todo as microcoleções, de cinco a dez modelos, que lança de quatro em quatro meses, com uma grade democrática, que vai do PP ao GG, e que esgotam invariavelmente. Para o verão, ela prepara nove modelos, entre short, calça, macacão e blusas neutras, sem muitas firulas, que ela desenha e corta nos tecidos da tecelagem Texprima em um espaço no Bom Retiro. 

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Luciane Sakon é influencer, designer e modelo das roupas minimalistas que faz para a sua marca Haye há dois anos

Ali, estudantes e pequenos criadores podem comprar no varejo metragens reduzidas de panos e desenvolver suas roupas, viabilizando assim um sonho que seria inviável caso tivessem de comprar o material no atacado. “É uma iniciativa perfeita para pequenas marcas como a minha, pois, além de diminuir drasticamente os custos, evita o desperdício. Compro só a quantidade de tecido que vou usar e executo lá mesmo.”

 

Luciane ainda mantém um showroom na Bela Vista, que divide com o estúdio do namorado, tatuador, onde ela atende com horário marcado clientes que preferem experimentar as roupas antes de comprar online. “Geralmente, é só na primeira compra. Depois as clientes relaxam e compram no site e no Instagram mesmo.” Atualmente ela anda exercitando uma modelagem mais ampla, sobretudo para as calças, para atender melhor os homens que também querem vestir as suas roupas. Multitask, Luciane faz tudo sozinha. Inspirada por pessoas reais, por arte e por fotografia, ela desenha, corta, costura, vende e serve de modelo para as suas criações. É ela que veste os looks no Instagram e no site da Haye. 

 

Em paralelo, faz a direção de arte e conteúdo do feed de dois restaurantes de amigos e exercita, sim, seu lado influenciadora, que aconteceu por acaso, quando foi citada pelo Steal the Look. “Faço parcerias com marcas nas quais eu acredito e que tenham a ver com a Haye e com a estética do meu feed. Eu poderia ganhar muito dinheiro assim, mas não seria verdadeiro. Ganho o suficiente com a minha grife para poder me dar ao luxo de escolher”, conta. Luciane tem 37,5 mil seguidores no Instagram, a Haye tem pouco mais de 6,5 mil, mas com um engajamento excelente. “Adorei quando sumiram os likes, porque agora segue e curte quem realmente gosta do seu conteúdo, e não porque o post tem 1 milhão de likes. Para mim, não mudou muita coisa. Quero continuar sendo verdadeira e influenciando quem realmente se identifica com o que eu faço.”

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A alfaiataria ampla e delicada da Anacê na nova campanha

Pensamento bem parecido ao da Anacê (@ atelieanace, 2 mil seguidores), a marca de Cecília Gromann e Ana Clara Watanabe, ambas de 21 anos. Amigas do curso de moda da Faap e fervilhando de criatividade, lançaram o novo negócio há menos de um ano e já fazem planos ambiciosos. Com os quatro pés no artsy, ocupam um espaço na Galeria Ondina 55, onde recebem clientes e amigos para vendas privadas regadas a vinho. 

 

“É uma experiência, pois as pessoas não vêm apenas para comprar roupas”, explica Cecília, que tem 32,3 mil seguidores no Instagram. Nascida em Embu-Guaçu, na Grande São Paulo, ela já passou pelo estilo da joalheira Mariah Rovery e da grife Shorts & Co., onde exercitou a mão na moda masculina. Quem gosta mesmo do universo dos meninos é Ana Clara, dona de uma vibe meio Tropicália, fã de alfaiataria, cores vivas e formas amplas. Referências que combinam com o repertório de Cecília, que faz o estilo mais mulherzinha na dupla, mas arremata a relação com extrema personalidade. 

 

Juntas, começaram a produzir roupas que ficassem bem na foto, com alma editorial, mas pouco apelo comercial. Aos poucos, foram equilibrando a fórmula e se aproximando do que imaginam ser a sua real vocação: fazer roupas para um nicho de pessoas que transitam entre a arte e a cultura e que gostem de exclusividade. As coleções saem no conta-gotas, com menos de dez modelos em cada uma, e com modelagem sem gênero. Se a primeira olhava para o modernismo, na segunda elas garimparam fotos antigas das respectivas famílias e reinterpretaram os costumes de proporções esquisitas dos antepassados. Entre os tecidos, algodão, crepe e linho, naturais, sim, mas sem ecoparanoia. “Ser sustentável é obrigação de uma marca de moda. Não queremos usar isso como marketing”, explica Cecília. 

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A alfaiataria ampla e delicada da Anacê na nova campanha

Orgulhosas de suas raízes interioranas – Ana Clara é de Pindamonhangaba –, elas fotografaram o material de divulgação em uma fazenda em Embu (SP), com modelos pouco convencionais, no maior clima rural fashion. Sim, elas também servem de manequins para as criações produzidas a quatro mãos, mas é mais fácil para Cecília, que tem uma vocação influenciadora maior do que a da amiga. “Até pouco tempo atrás, eu só postava foto de cadeira no meu feed!”, diverte-se Ana Clara. “A Cecília me ajuda bastante. Já estou mais solta.”

 

De fato, Cecília entendeu logo que trabalhar a sua imagem pessoal fazia parte do jogo e que elas seriam as melhores garotas-propaganda das roupas. Ela também realiza suas parcerias digitais, mas desde que não concorram com a Anacê. Por isso, prefere trabalhar com nomes maiores, como a Calvin Klein. Reticente quando a palavra influenciadora entra na conversa, ela explica que é porque tinha medo de ficar rotulada e, assim, sofrer preconceito em sua área, já que sempre quis ser estilista. “Acabei aprendendo a usar isso a meu favor.”

 

As meninas não têm vontade de ser gigantes do varejo, apesar de planejarem sair do showroom e do digital para pontos físicos em um futuro não muito distante. “Não queremos perder a essência premium e as características de produtos exclusivos”, diz Ana Clara. 

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A alfaiataria ampla e delicada da Anacê na nova campanha

Quanto ao próximo passo das influenciadoras, elas são bem conscientes e tranquilas: “Não teremos uma nova Thassia Naves. O conteúdo tende a ser mais nichado, o que é bom. O Instagram mudou seu algoritmo e acabou com os likes, já que tudo tinha ficado grande e fake demais”, opina Cecília. Ana Clara faz coro e acrescenta: “Mais vale ter uma influência real sobre um grupo menor de pessoas do que ter uma quantidade enorme de seguidores, o que torna quase impossível medir o impacto de sua influência. Para o nosso modelo de negócios, tamanho não é documento”. Quantos likes merecem essas garotas, hein?

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