Moda

Modelo, transexual e ativista, Teddy Quinlivan fala abertamente sobre assédios na moda

A modelo conversa com a L’Officiel sobre sua condição de transgênero e denuncia o grande assédio que existe no meio da moda.
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Teddy Quinlivan vive hoje em Paris, sonha com o jornalismo e usa as passarelas como plataforma para apoiar a comunidade LGBT. Em 2015, foi descoberta por Nicolas Ghesquière, diretor de criação da Louis Vuitton – revelação que a impulsionou no mundo da moda, em que desfila para as mais reputadas maisons.

No início, ninguém imaginou que se tratasse de uma modelo transgênero. Em 2017, em sinal de respeito à comunidade LGBT, ela declarou ser transexual numa entrevista para a rede CNN. Um ato de coragem que acabou degradando as relações de trabalho já estabelecidas com algumas grifes de luxo.

“Muitas marcas não concordavam. Tinham dúvidas de que fosse um bom momento para serem representadas por uma ativista transexual. E eu, ao mesmo tempo, não me sentia mais confortável em trabalhar com elas. Foi um pouco como se um namorado me traísse pelas costas e depois fosse embora”, desabafa.

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Jardineira e sandálias de couro, SALVATORE FERRAGAMO

Sua presença nas capas de revista e nos desfiles mais concorridos, ao lado de outras modelos transgênero ou sem gênero – de gênero neutro, como Valentina Sampaio, Andreja Pejic e Oslo Grace –, é a prova concreta de que a beleza não tem sexo. Mas, enquanto a moda e as diversas mídias estão cada vez mais à vontade para abordar as questões de gênero, uma onda populista vem ganhando força em determinados países, como no Brasil, onde o número de atos violentos contra os transexuais só aumenta. Nos Estados Unidos também, pois a política de Donald Trump estigmatiza a comunidade LGBT. Em um contexto como esse, Teddy é uma pessoa engajada. 

 

Criada em Worcester, uma pequena cidade perto de Boston, Teddy conheceu muito cedo o reflexo do ódio e da ignorância. Ainda na pele de um menino, ela participava de torneios de snowboard nas montanhas de Vermont como uma forma de escapar dos maus tratos de que era vítima na escola. Teddy começou seu tratamento hormonal na adolescência. Ela convenceu seus pais que era fundamentalmente uma mulher e eles acabaram a enviando para um internato de meninas. Aos 17 anos, ela começou sua carreira de modelo ao se instalar em Nova York, onde enfrentou o lado obscuro da indústria. 

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Minivestido de couro, cinto e escarpins de couro, MIU MIU. Meias de náilon, PRADA

Em abril de 2018, Teddy usou sua conta de Instagram para revelar os assédios, por parte de alguns fotógrafos e diretores de casting, dos quais foi vítima. “Não esperava que, logo na minha primeira temporada, um diretor de casting pudesse me propor aparecer na capa de uma revista em troca de relações sexuais, que um estilista pudesse colocar a mão no meu bumbum numa sessão de fotos ou mesmo que um fotógrafo apertasse meu seio”, ela escreveu numa mensagem depois da tempestade #MeToo.

“As mulheres não se sentem tranquilas nesta indústria. Precisamos de mudanças. Mas nada acontecerá se as pessoas que trabalham no meio continuarem indiferentes”, ressalta. 

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Vestido com pontos abertos de náilon, top de elastano, saia-rede de couro e calcinha de elastano, DIOR

A essa altura da entrevista, Teddy aparenta estar mais relaxada e muito gentil. Ela termina seu prato de salada emoldurada numa bela tarde no bairro do Marais, em Paris, onde fixou residência. “Aqui existe outra atmosfera. Quando vivia nos Estados Unidos, me sentia aceita pela comunidade LGBT, mas não pela comunidade hétero. Em Paris, me sinto aceita por todos.”

Ela admite que por enquanto a moda é uma boa plataforma para se fazer ouvir. “Quando era jovem, queria ser um espião e trabalhar na CIA porque gosto de casos difíceis de serem resolvidos. No momento, estou apaixonada pelo jornalismo. Comecei a compreender seu potencial nessa era de fake news, com Trump no poder.” Teddy continua engajada.

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Corpete sem alças de seda, EMPORIO ARMANI. Calça de lã, MAISON MARGIELA. Chapéu de plumas e cinto de couro, VALENTINO. Escarpins de couro, FRANCESCO RUSSO
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Blazer de couro, calça de tecido tecnológico e cinto de couro, GIVENCHY
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Blusa assimétrica de vinil, calça de gabardine de lã e escarpins de couro, MAX MARA.
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Vestido de couro plissado, VALENTINO
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Vestido de seda estampado, body de neoprene e botas de cano curto emborrachadas, CALVIN KLEIN 205W39N

 

Edição de Moda: Christina Ahlberg; Fotos: Jesse Laitinen; Cabelo: Christos Vourlis; Maquiagem: Mayumi Oda; Assistente de fotografia: Adrien Nicolay; Tradução para o francês: Géraldine Trole; Tradução: Claudia Levron para L’OFFICIEL Brasil

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