Viagem

África como você nunca viu: descubra um continente plural e apaixonante

Embarque em uma viagem pela África do Sul e Botsuana com quem passou uma temporada no continente mais plural, colorido, animado e apaixonante
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Quando embarquei rumo a uma temporada no continente, não imaginava como isso me mudaria. O impacto imediato foi viajar sozinha aos dezesseis anos – embora não estivesse completamente desacompanhada num grupo com outras seis garotas. Em Cape Town, cada uma de nós partiu para a sua nova casa. O roteiro contemplava três semanas, com estadia familiar, campinge habitação coletiva. Tive a sorte de ser acolhida por um jovem casal de grafiteiros, superdivertido e descolado. 

Os meus “pais temporários” têm uma filhinha, a Aurora, de três anos, e curtem o estilo ecorresponsável. Por sinal, a realidade naquela parte da África é muito sensível à questão da sustentabilidade – e é claro que isso também contribuiu para o meu desenvolvimento pessoal. 

 

Aportei por ali em meio à maior crise hídrica da história. Para quem não sabe, a África do Sul é o primeiro lugar do planeta a enfrentar a escassez total de água – secaram as fontes naturais. A título de ilustração, no início da formação da Terra, há uns 500 milhões de anos, no traçado da Pangeia, o Brasil e a África eram grudados, ou que leva a crer que o cenário apocalíptico pode se repetir aqui se persistirmos no descaso com o assunto. 
 

Entre tantas lições, aprendi rapidamente que dá para se virar com pouco. Passei a apreciar alimentos cultivados em hortas orgânicas, a tomar banhos rápidos e a trabalhar em conjunto. A recompensa é perceber que tudo rola harmoniosamente, sem o estresse típico das grandes cidades – e isso faz um bem danado para a mente. 

 

Durante os dias em que estive ao lado da minha família postiça, aproveitei para pegar onda e melhorar o meu inglês. Também me senti independente e mais madura. Diariamente, encontrava as minhas amigas e saíamos para conhecer a cidade. Mas nada de “turistar” – a ideia era mergulhar na cultura local. 

E nós fizemos de tudo: de aulas de djembê (uma espécie de tambor) e de xhosa (língua bantu que reproduz sons de estalos, falada por mais de 10 milhões de pessoas) a cozinhar a própria comida e fazer caminhadas pela Robben Island, onde Nelson Mandela ficou preso por dezoito anos. Tudo sempre acompanhado de debates sobre liberdade e respeito. 

 

Dessa experiência, levo a esperança de que a humanidade possa ser capaz de compreender as diferenças e sacar que nada é mais poderoso do que estar em paz – é como a frase-chavão a que nos acostumamos 
a dizer naqueles dias: a vida é uma só. 

 

Despedimo-nos com aquela choradeira típica de um grupo de garotas de dezesseis anos e, enquanto as meninas retornavam ao Brasil, ganhei a companhia da minha mãe rumo a Botsuana, deixando para trás as águas geladas do litoral para encarar o deserto do Kalahari.

Ficamos hospedadas em três campsda Wilderness Safaris, uma organização não governamental que atua por meio de projetos ligados ao ecoturismo usando recursos arrecadados para gerar empregos e manter as reservas ambientais das regiões.

 

Escolhemos essa experiência por conta da filosofia focada na responsabilidade social – ouvimos muito sobre os “4Cs” (comércio, conservação, comunidade e cultura) e a preocupaçãocom o ecoturismo, a gestão ambiental, os residentes e a preservação de suas tradições. Além disso,eles também cuidam de um projeto com crianças da região. 

“APRENDEMOS A ENCONTRAR OS ANIMAIS ESCUTANDO O CANTO DOS PÁSSAROS, OBSERVANDO A LINGUAGEM CORPORAL DOS PREDADORES E ESTUDANDO PEGADAS. TUDO NA SELVA POSSUI UMA RELAÇÃO DE DEPENDÊNCIA.”

Chitabe foi nosso primeiro camp, no sudeste do Delta do Okavango. Lá, os animais passeiam sem se incomodar com a presença dos visitantes, e não há interferência do homem no cotidiano da fauna. Foi de perder o fôlego.

 

Para chegarmos até ali, fizemos um voo de trinta minutos em um pequeno avião e, no desembarque, nosso guia já nos aguardava em um 4x4 – detalhe que deixou claro que seriam dias de muita adrenalina. 

 

 

A estrutura é composta poroito tendas construídas sobre plataformas de madeira elevadas e interligadas entre si. Enquanto impalas rodeiam a construção na parte debaixo, os macaquinhos dominam completamente a atenção nas alturas e nos corrimões do lugar.

 

Em nosso quarto, a experiênciamais marcante foi tomar banho a céu aberto – um dos chuveiros fica estrategicamente posicionado à frente do lago predileto dos hipopótamos e elefantes!

Sou escolada em safáris – comecei aos sete anos –, e posso dizer que a Wilderness oferece algo completamente diferente de tudo o que existe por aí. Os guias não apenas nos mostram os animais, mas explicam todo o seu comportamento. Aprendemos a encontrar os animais escutando e entendendo o canto dos pássaros, observando a linguagem corporal dos predadores e estudando pegadas. Tudo na selva possui uma relação de dependência.

 

Entre as muitas experiências encantadoras, destaco seguir matilhas de cachorros selvagens, observar como um grupo de hienas se organiza para uma caçada, observar pequenos filhotes de chita brincando por horas a fio e fotografar o lindo baléde duas girafas marcando território. Tudo com calma, sem pressa, deixando o tempo passar.


O próximo destino foi o Lodge Little Vumbura, situado em uma ilha ao norte do Delta, com foco dele nas atividades na água, com destaque para o passeio de mokoro (canoa de quatro metros feita de fibra de vidro para evitar o desmatamento). São horas deslizando pelos pequenos canais observando aves e pequenos répteis, passando o tempo conversando e fazendo colares com vitórias-régias e chapéus de folhas. Passeios de lancha e piqueniques ao pôr do sol completavam os programas.

 

Lá, os safáris de observação sãoconsiderados por especialistas os melhores do mundo. Pode se ver de leopardos a zebras, passando por leões e girafas. No entanto, foi o santuário de elefantes que mais comoveu – ali estão animais que sofreram maus-tratos, órfãos e filhotes que foram encontrados machucados e tiveram a sorte de serem resgatados. 

No Abu Camp é possível interagir com todos eles, e o carinho, o amor e o vínculo dos cuidadores com eles é emocionante. Preciso falar sobre a elefantinha Naledi. Batizada com um nome que significa “estrela” e hoje com toda a pinta de pop, ela ficou órfã, enfrentou uma perigosa cirurgia e teve que ser retirada do convívio da família. Mas sobreviveu para protagonizar o encantador documentário Naledi: A Baby Elephant’s Tale (disponível no Netflix). 


Acordávamos às seis da manhã para alimentar a manada ao lado dos tratadores. Depois, caminhávamos até o lago na companhia dos elefantes, que víamos demuito perto, chegando a olhá-losnos olhos. 

O principal lema do camp é “deixar os elefantes livres para que sejam elefantes de verdade” – o que resultou, inclusive, no feliz nascimento do filhote Motlotlo, fruto de um relacionamento entre uma elefante do camp e outro nativo.

 

A história serve para comprovar a eficiência de se colocar em prática as três palavrinhas que guiaram o tour –e, de certo modo, a viagem como um todo: comprometimento, respeito e liberdade.

Fotos: Pimpa Brauen

 

Este artigo foi retirado da edição #58 da L'Officiel Brasil

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