Viagem

Céu de estrelas: uma viagem contemplativa pela Namíbia

O compasso entre o tempo, o ambiente e o povo da Namíbia mostra que a felicidade é apenas algo etéreo que se tenta agarrar o tempo todo. Para ele, o segredo está em encontrar, contemplar e deixar ir
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Quem teve a chance de conhecer um dos tantos países da África provavelmente guardou na memória, entre inúmeras referências, os verdes da vegetação que ocupa o horizonte, os sons acentuados da natureza e a agitação nervosa dos animais que se sentem ameaçados – alguns deles, de fato, são presas em potencial de outras espécies.

 

Localizada ao sul do continente, a Namíbia é exatamente o oposto. Com menos de 2,5 milhões de habitantes, a região, conhecida pelas topografias áridas dos desertos de Namib, próximo da costa, e de Kalahari, que se estende pelo território da vizinha Botsuana, tem o laranja-amarelado da areia tingindo as planícies locais. 

 


Além da mineração, em que se destacam as reservas de diamantes, de urânio e de cobre, a agricultura e a pecuária em pequenas e grandes propriedades mantêm boa parte das famílias que vivem no norte e no planalto central. A pesca, claro, sustenta a população que reside no litoral e o turismo voltado para as paisagens monumentais do seu entorno. Nessa terra, em que o clima determina os hábitos até mesmo dos pássaros – as altas temperaturas parecem fazê-los voar lentamente e quem sabe para economizar energia –, as pessoas esbanjam tranquilidade e aquele tipo exuberante de alegria que deixa sempre um sorriso no rosto. 

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Irresistível aos olhos, a Namíbia é uma das boas pedidas para conhecer esse pedaço do planeta. A dica está em se hospedar nos lodges ou nos acampamentos – chamados de camps –, construídos geralmente ao lado de parques e amplas reservas.

Quem mora em São Paulo, por exemplo, pode pegar o voo que segue direto para Joanesburgo, na África do Sul. De lá, um pequeno avião leva os passageiros até a capital namibiana, Windhoek, que ainda guarda os traços da colonização alemã do início do século 19 e da presença dos britânicos e dos sul-africanos, que ocuparam o país até a sua independência, em março de 1990.

Bem no meio da cidade, perto do aeroporto, vê-se o The Olive Exclusive All-Suite Hotel, e seu eixo conceitual de “conforto chique”, identificado no desenho contemporâneo da construção, nos móveis feitos de matérias-primas naturais e nas texturas orgânicas dos revestimentos das paredes e dos estofamentos. 

 

 

Por fim, o ambiente do hotel funciona como um filtro, que desconecta o hóspede daquele ruído característico do trecho urbano e o deixa pronto para as aventuras ao ar livre que virão a seguir. A bordo de outro voo, é hora de se despedir da capital e partir para as proximidades do Parque Nacional Namib-Naukluft, uma área de conservação que abriga diversos circuitos turísticos, como as dunas de areia de Sossusvlei e os achados arqueológicos de cerca de 200 mil anos, relacionados à Idade da Pedra. 

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Erguido numa propriedade de 37 mil hectares da Wilderness Safaris, na beira do leito seco do Rio Auab, o acampamento Little Kulala dispõe de 11 acomodações climatizadas e tem acesso direto ao parque. A decoração dos quartos valoriza as cores pastel e os tons terrosos.

O silêncio, vale ressaltar, é uma das sensações mais poderosas das imediações, rompido somente pelos ruídos do vento, da areia movimentada aqui e ali e do “crec, crec, crec” dos sapatos que batem no piso de madeira. Nos terraços dispostos na parte superior de cada quarto, o hóspede conta também com uma cama com dossel, as skybeds. Admirar o famoso céu azul da Namíbia, sempre coalhado de estrelas, é um privilégio.

 

 

A manhã começa e é hora de conhecer os cânions do Desfiladeiro de Sesriem. Expostos aos vendavais de areia, todos embarcam nos jeeps que fazem o transporte até o ponto de chegada, onde as formações rochosas entalhadas pela água durante milhões de anos resultaram num conjunto visualmente vigoroso, de 3 km de extensão, que se completa pelas camadas de cascalho acumuladas no chão e pelas árvores quebradas, convertidas pouco a pouco em obstáculos por quem passa pelo caminho.

De volta, durante o jantar à luz de velas, no deque da piscina, a surpresa é causada por um grupo de raposas-bastão-orelhudas, que se aproximam para beber água no poço na entrada do lodge. Lá, o safári vem até você. Satisfeitas, elas seguem em frente e nem tomam conhecimento das pessoas sentadas à mesa.

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Um dia antes de voar para outro acampamento, acontece a aguardada visita às dunas mais antigas do mundo, do Deserto de Sossusvlei. Elas variam dos tons de rosa e amarelo ao laranja e contrastam com o azul mais forte do céu, num dos ecossistemas mais inóspitos e antigos do mundo – dizem que as formações da grande “panela de barro” chegam a mais de 400 m de altura. Testemunhar o nascer do sol do alto dessas elevações se traduz num momento ímpar e muda de certa maneira a perspectiva que cada um tem das coisas. A natureza é forte, presente, capaz de engolir.

 

Logo depois, vale a pena conhecer o Dead Vlei, um vale marcado pelo contraste entre o chão de argila branca e os fósseis petrificados das árvores mortas há cerca de 800 anos. A região já foi um oásis, mas o rio secou, deixando uma intrigante paisagem de presente. À tarde, o passeio de quadriciclo pode trazer encontros inesperados – e muito próximos! – com um órix, ou Oryx gazella, um antílope africano considerado o animalsímbolo do país. Para se perder no arco-íris que a garoa deixou depois de uma passagem rápida de dois minutos, só mesmo o piquenique oferecido pelos guias, com direito a doses de Amarula, vinho ou gim tônica. Um presente, sem dúvida. 
 

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O Serra Cafema, por sua vez, é um dos lodges mais interessantes da África Austral. A infraestrutura planejada pela Wilderness reúne oito chalés de madeira, construídos sobre plataformas elevadas à beira do Rio Kunene, dono de águas caudalosas, que abrigam um número expressivo de crocodilos.

Ao som da correnteza, o protagonista da playlist local, o passeio de barco leva até a região onde vivem os Himba, um povo seminômade conhecido por manter seus hábitos milenares e pelo tom ocre da pele das mulheres, que utilizam uma pasta chamada otjize, composta de pó de minério de ferro com gordura animal, para proteger o corpo e os cabelos do sol forte e dos insetos. 

 

A aproximação com os himbas se dá aos poucos e é preciso seguir as orientações do guia – ele mesmo um membro da comunidade. A organização social deles permite a poligamia. Então, os homens tentam ter o máximo de esposas para poder formar uma família numerosa e bem-sucedida. Cuidar da criação das cabras e do gado é a responsabilidade da mulher, que também constrói as habitações, produz itens de artesanato para a venda, cria os filhos e prepara a comida. Aos homens cabe a tarefa de administrar o grupo e, algumas vezes, cuidar do gado. São todos extremamente gentis e, enquanto estamos lá, continuam organizando todas as tarefas do dia a dia, permitindo muitas vezes até a interação entre os visitantes – por exemplo, na hora de tirar leite da vaca.

 

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O último destino desse roteiro, que percorreu alguns dos acampamentos da Wilderness Safari na Namíbia, foi o Hoanib Skeleton Coast, incrustado no Deserto de Kaokoveld, numa faixa de terra de imagens cinematográficas. No endereço, os viajantes têm à disposição oito grandes tendas, bem como o lounge principal e uma piscina com vista para o vale, ideal para amenizar as altas temperaturas durante o dia. Ao desbravar os arredores, uma das maiores curiosidades é conhecer o cemitério dos navios encalhados na Costa dos Esqueletos, no Oceano Atlântico, onde milhares de naufrágios aconteceram, a duas horas de carro do Camp. Outra atração é passear a pé entre as colônias dos dóceis e curiosos leões-marinhos, muitos deles filhotes com poucos meses de idade. 
 

 

A melhor surpresa é se deparar, no meio do passeio, com seu almoço devidamente preparado numa pequena mesa posta à beira do Atlântico, só para você, a brisa e o mar. Nesse último camp, é possível encontrar alguns animais que foram adaptados à difícil região desértica – elefantes e girafas com a capacidade de passar dias sem beber água passeiam tranquilamente em pequenos grupos, embalados pelo ritmo tranquilo do deserto. 

 

Hospedar-se nesses camps é o que permite conhecer realmente a Namíbia. Só neles é possível vivenciar três experiências diferentes e complementares. Enquanto o camp Little Kulala trouxe as dunas, as cores quentes e o vento seco, o Serra Cafema proporcionou o contato com o Rio Kunene, a vegetação que o cerca e as histórias de quem vive dela, como os himbas, essa gente maravilhosa. Já no último, o Hoanib Skeleton Coast, a presença de grandes animais convida a um safári. Ele está incrustado no Deserto de Kaokoveld, numa faixa de terra de imagens cinematográficas. 

 

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