Hommes

O efeito do desmatamento sobre os indígenas brasileiros

O reconhecimento de propriedade da terra brasileira se faz urgente. Entender as questões indígenas e proteger o meio ambiente são obrigações da humanidade
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Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil Divulgação

Talvez ele tenha 88 anos, mas talvez sejam 78 anos. A data do nascimento de Raoni Metuktire é imprecisa. O líder indígena cresceu numa vila chamada Krajmopyjakare – rebatizada para Kapôt, no Mato Grosso. Filho de Umoro, do ramo dos caiapós metuquitire, Raoni experimentou a vida nômade, que faz parte do DNA de seu povo, fato que lhe conferiu conhecimento sobre outras etnias locais. 

Na puberdade, com a ajuda do irmão Motibau, ele inseriu a mereta (“botoque”, como apelidaram os europeus), uma espécie de disco de madeira colocado no lábio inferior, artefato usado pelos grandes oradores e chefes de guerra. Até o início da década de 1950, Raoni e os seus familiares estavam seguros em solo intocado pelo homem branco. 

Mas 1954 chegou. E com ele, vieram os irmãos Villas-Bôas e a famosa Marcha para o Oeste. O plano de ocupação do território, lançado em 1938, na Era Varguista, em plena ditadura do Estado Novo, queria “recolonizar” o País e retomar as extrações do ouro e da madeira nobre. “A civilização brasileira à mercê dos fatores geográficos, estendeu-se no sentido da longitude, ocupando o vasto litoral, onde se localizaram os centros principais de atividade, riqueza e vida. Mais do que uma simples imagem, é uma realidade urgente e necessária galgar a montanha, transpor os planaltos e expandir-nos no sentido das latitudes. 

Retomando a trilha dos pioneiros que plantaram no coração do continente em vigorosa e épica arrancada, os marcos das fronteiras territoriais, precisamos de novo suprimir obstáculos, encurtar distâncias, abrir caminhos e estender fronteiras econômicas, consolidando, definitivamente, os alicerces da nação. O verdadeiro sentido de brasilidade é a Marcha para o Oeste. No século 18, de lá jorrou o caudal de ouro que transbordou na Europa e fez da América o continente das cobiças e tentativas aventurosas. E lá teremos de ir buscar: dos vales férteis e vastos, o produto das culturas variadas e fartas; das entranhas da terra, o metal, com que forjar os instrumentos da nossa defesa e do nosso progresso industrial”, discursou Getúlio Vargas à época.

A expedição Roncador-Xingu seguiu como a segunda fase do contato com os povos indígenas. Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas estavam no comando da missão, que visava desbravar as áreas “em branco” da cartografia nacional. Porém, não havia apenas grandes extensões intactas; existiam pessoas, culturas e singularidades que precisavam ser respeitadas. “O encontro com os indígenas foi um acidente na campanha. Nós sempre avisávamos aos políticos: ‘essa terra já tem dono’”, discorreu Orlando, em entrevista para o Jornal Folha de S.Paulo (1998). E aí, diante desse “pormenor”, Darcy Ribeiro e José Maria da Gama Malcher, apoiados por artistas e pelo trio Villas-Bôas, pressionaram o governo federal para que fosse idealizada uma área de proteção ambiental e indígena. 

O Parque Indígena do Xingu foi criado em 1961, pelo então presidente Jânio Quadros. Atualmente, o lugar conta com 5.500 habitantes, de 14 etnias diferentes pertencentes às quatro principais famílias linguísticas – carib, aruak, tupi e jê. 

Vale dizer que a ideia de ampliar o território verde-amarelo nada mais era que a abertura de estradas no melhor estilo ianque de modernização e o fortalecimento das fronteiras e do monopólio sistêmico dos recursos naturais. Para ilustrar, em 1972, a implantação da futura rodovia Cuiabá-Santarém ocasionou no contato com os Krenakarore (conhecidos como panarás), indígenas descritos como gigantes e combativos, que viviam às margens do rio Peixoto de Azevedo, na divisa entre Pará e Mato Grosso. As negociações acabaram por incentivá-los a abandonar a selva, em 1978 (área que não fazia parte da futura demarcação), e os que restaram, estavam debilitados por causa do contato com os brancos, e foram transferidos para o Xingu.

 

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Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil Divulgação

Língua universal

Raoni aprendeu o português com os Villas-Bôas. Entendeu a dinâmica entre colonizadores e indígenas, e se lançou na tarefa de revelar a causa e as condições dos povos nativos para o mundo, bem como mobilizar os governantes sobre os impactos das mudanças climáticas. 

Esteve com Juscelino Kubitschek – presidente do Brasil nos anos 1950 –, depois encontrou-se com o rei da Bélgica, Leopold III, e com o jovem cineasta Jean-Pierre Dutilleux, autor do documentário “Raoni”, indicado ao Oscar em 1979, que ganhou narração de Marlon Brando e despertou o interesse sobre o estilo de vida das populações indígenas americanas. No fim da década de 1980, Raoni conheceu o cantor Sting, que o levou para uma série de viagens internacionais para que ele conseguisse divulgar o manifesto em prol dos biomas brasileiros. 

E, então, Raoni tornou-se indigesto.

Mesmo com a alternância de poder, o Brasil segue negando o óbvio: a proteção à terra é questão de sobrevivência à humanidade. Não são apenas os indígenas que precisam das florestas, dos manguezais ou do cerrado, da caça ou das frutas; aquela gente apressada e bem arrumada das metrópoles também se abastece do meio ambiente, ainda que ele chegue às prateleiras em versões enlatadas e impregnadas de sódio. 

As alterações do clima também impactam diretamente na produção agrícola e modificam a qualidade do solo (isso quando não o esterilizam), sem contar que afugentam os animais – ou os extinguem. Sem agricultura, não há comida. E sem comida, não há existência. Trocando em miúdos, a luta de Raoni é plural.

Ainda nos anos 1970, a problemática girava em torno da demarcação das terras. Acreditavam os sertanistas e a Funai (Fundação Nacional do Índio), que a delimitação geográfica seria o suficiente para resguardar a fauna e a flora, assim como proteger as populações do Xingu. Mas a ganância do homem branco não se contentou em riscar do mapa mais de 200 mil quilômetros quadrados de florestas, em apenas dez anos (é como se todo o território da Nova Zelândia desaparecesse) – e avançou dolorosamente sobre as moradias indígenas.

As lideranças buscaram alinhar sucessivos acordos para manter fazendeiros, seringueiros, garimpeiros e madeireiros longe de suas terras. “Homem branco acha que ‘índio’ é bicho. ‘Índio’ não é bicho, não é macaco, não é anta. ‘Índio’ é gente mesmo! Antigamente, não tinha ‘caraíba’ e nem doença. Não tinha malária, não tinha gripe... O ‘caraíba’ chegou aqui e trouxe doença, morte”, disse Raoni em conversa com outras tribos, registrada no filme de Dutilleux.

Hoje, Raoni é mais uma vítima da Covid-19. Internado, o cacique luta por sua vida – mas mantém a esperança de ver o seu povo reconhecido e as florestas salvas. A demarcação, de fato, nunca foi eficaz. Os exploradores – mesmo quinhentos e tantos anos depois das naus cabralistas aportarem em Pindorama – mantiveram-se impiedosos. Assassinaram mais de 1.120 indígenas nas últimas três décadas. Nenhum avanço rolou. Dos oito milhões de nativos nos tempos do “descobrimento”, restaram pouco mais de 800 mil. 

No Palácio da Alvorada, a taciturnidade é perturbadora. O Ministério do Meio Ambiente, pilotado pelo desastrado Ricardo Salles (aquele da frase: “vamos aproveitar a pandemia para passar a boiada”), trava guerras para transformar a Amazônia em um pasto de dimensões generosas. Boi no lugar de árvore. E o gado é gatuno, trabalha à espreita da lei, manipula dados e confunde as informações. 

Em uma de suas recentes entrevistas (para o The Guardian), Raoni deixou claro o que anda acontecendo por aqui: “O presidente [Jair] Bolsonaro do Brasil está encorajando os fazendeiros próximos às nossas terras a derrubar a floresta – e ele não está fazendo nada para evitar que eles invadam o nosso território”. Silêncio no reino.

O discurso seguinte, feito na Câmara dos Deputados, no fim de 2019, reforçou o desgosto pela política ideológica (mequetrefe) do senhor presidente. “O Bolsonaro falou que eu não sou uma liderança. Ele é que não é uma liderança e tem que sair. Antes que algo muito ruim aconteça, ele tem que sair para o bem de todos. Eu volto a repetir que minha fala é para o bem, que minha fala é tranquila e não ofendo ninguém. Que todo mundo viva com saúde e com tranquilidade. Essa é a [minha] fala, a [minha] luta. A minha luta é pela preservação do meio ambiente. E hoje todo mundo está com os olhos voltados para a destruição do meio ambiente e o [nosso] trabalho é para fortalecer, para preservar o meio ambiente para todos.”

Raoni convalesce, mas os seus sonhos já estão na cabeça dos mais jovens, guiados por Greta Thunberg, Shady Rabab, Miranda Wang e Arpit Dhupar. Os governos são passageiros, as lutas verdadeiras, entretanto, se perpetuam. É nesse sentido que conhecemos os heróis e os vilões. A história está sendo escrita agora, mas o lugar do herói já tem dono.

 

 

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